O custo de viver junto: desejo, culpa e ressentimento na vida contemporânea
🧐📄 *TEXTÃO DE HOJE*
*O custo de viver junto: desejo, culpa e ressentimento na vida contemporânea*
Viver em sociedade nunca foi gratuito. Freud nos ensinou, já no início do século XX, que não existe psicologia puramente individual: toda vida psíquica é atravessada pelo outro, pelo laço social, pela cultura. O sujeito só se constitui na relação — e é justamente aí que começa o mal-estar. A promessa de pertencimento cobra um preço alto: a renúncia ao prazer, a contenção dos impulsos, o desvio da energia vital para finalidades sociais. O que se ganha em civilização, perde-se em satisfação direta. E esse desequilíbrio nunca deixa de produzir sintomas .
Freud percebeu com clareza clínica algo que hoje se impõe com força ainda maior: quanto mais estreitos são os ideais de normalidade, mais sofrimento eles produzem. A exigência de corresponder a um modelo único de ser — sexual, afetivo, profissional, moral — esmaga o sujeito. Não nos tornamos ideais, tampouco nos tornamos nós mesmos; ficamos presos numa dívida permanente com um “dever ser” inalcançável. A análise, nesse sentido, não promete adaptação perfeita, mas a possibilidade de desilusão: quebrar ideais, reduzir expectativas, abrir espaço para formas singulares de prazer que não se alinham ao padrão dominante .
A vida coletiva exige lei, pacto, renúncia compartilhada. Freud mostra, em Totem e Tabu, que só há sociedade quando ninguém ocupa o lugar absoluto do poder. O pacto só funciona se for isonômico. Quando a lei deixa de valer para todos, quando as instituições falham como mediadoras simbólicas, emerge a paranoia social: cada um passa a se defender sozinho, protegendo seu território narcísico. É nesse vácuo que florescem tanto a violência quanto o fanatismo — duas respostas à falência do laço simbólico .
No mundo contemporâneo, marcado pela dissolução das referências tradicionais e pelo que se chamou de “mundo líquido”, o sujeito oscila entre o desejo de liberdade e o pavor da responsabilidade. Queremos autonomia, mas buscamos desesperadamente novos coletivos que nos garantam identidade, proteção e sentido. Daí o retorno de moralismos, conservadorismos e também de radicalizações identitárias. Não se trata apenas de ideologia, mas de defesa psíquica: diante da angústia, o sujeito prefere certezas duras à incerteza compartilhada .
Freud foi especialmente contundente ao nomear o grande afeto que sustenta o mal-estar civilizatório: a culpa. Quanto mais renunciamos aos impulsos agressivos e sexuais em nome do convívio, mais essa agressividade retorna contra o próprio Eu. O ódio que não pode ir para fora volta-se para dentro, alimentando sofrimento, autocrítica feroz e exaustão. Quando essa culpa se torna insuportável, ela se transforma em ressentimento — um discurso que projeta no outro a responsabilidade pela própria infelicidade. O ressentido não quer reparar, nem elaborar; quer permanecer preso à sua ferida como identidade .
Talvez o ponto mais atual de Freud esteja aqui: não há solução definitiva para o mal-estar. Não existe sociedade sem custo, nem felicidade plena garantida pelo coletivo. O que existe é a possibilidade — sempre frágil — de reconstruir pactos, sustentar laços, tolerar a ambivalência entre amar e odiar, desejar e renunciar. A psicanálise não promete um mundo sem conflito, mas oferece uma ética: a de não transformar a própria dor em moral, nem o próprio ressentimento em política. Reconhecer o custo de viver junto é, paradoxalmente, o que ainda torna possível continuar vivendo juntos .
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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