A Fome que Não se Cala: Gozo, Excesso e Morte à Mesa
🧐📄 *Textão de Hoje*
**A Fome que Não se Cala: Gozo, Excesso e Morte à Mesa**
Há livros que falam de comida, e há livros que falam de desejo. *O Clube dos Anjos*, de **Luís Fernando Veríssimo**, fala dos dois — mas, sobretudo, daquilo que a comida encena: a fome como metáfora radical do humano. Não a fome fisiológica, mas a fome que não se cala, que retorna, que insiste, mesmo quando tudo o mais já se esgotou. Como o próprio texto sugere logo de início, “a visão acaba, a audição acaba, o sexo acaba, o poder acaba — mas a fome continua” .
Do ponto de vista psicanalítico, essa fome é um nome possível da pulsão. A pulsão não busca saciedade definitiva; ela gira, contorna, repete. Come-se não para preencher um vazio, mas para reencontrá-lo. Em *O Clube dos Anjos*, os banquetes não são celebrações da vida, mas rituais de repetição: comer de novo, comer melhor, comer até o limite — como se, dessa vez, algo finalmente fosse satisfeito. Mas nunca é. A mesa se torna o palco do retorno compulsivo do mesmo, onde o prazer já nasce colado à morte.
Freud nos ensinou que toda pulsão traz em si uma face mortífera. Veríssimo dramatiza isso com ironia cruel: quanto maior o refinamento gastronômico, mais próxima a morte se apresenta. A figura do cozinheiro Lucídio encarna essa lógica de modo exemplar. Ele não é apenas aquele que prepara os pratos; é aquele que administra o gozo. Decide quanto cada um pode comer, até onde pode ir, quando o excesso se torna fatal. Na clínica, sabemos bem: não é o objeto que mata, mas a relação do sujeito com o objeto. Não é a comida — é a posição subjetiva diante do gozo.
O clube, fechado, masculino, ritualizado, funciona como uma espécie de Supereu coletivo. Um Supereu que não proíbe, mas ordena: “goza!”. Goza com requinte, com bravura, com desprezo pelas consequências. E quanto mais se obedece a esse imperativo, mais o castigo se aproxima. A morte, no romance, não aparece como tragédia inesperada, mas como desfecho lógico de uma economia pulsional sem limite. O excesso não é acidente; é destino.
Há ainda algo profundamente contemporâneo nessa narrativa. Vivemos numa cultura que promete experiências absolutas: o melhor prato, o melhor vinho, o melhor sexo, a melhor versão de si. Mas o sujeito, ao tentar responder a essa promessa, se vê cada vez mais vazio, mais cansado, mais próximo do colapso. O clube de Veríssimo é uma caricatura precisa da nossa civilização do excesso: quanto mais se consome, menos se vive.
No fim, *O Clube dos Anjos* nos devolve uma pergunta que atravessa a clínica: o que fazemos com a nossa fome? Tentamos tamponá-la com objetos, rituais, excessos — ou aceitamos que ela é estrutural, que não há prato capaz de preenchê-la? A psicanálise não promete saciedade. Promete, no máximo, um outro modo de lidar com o desejo: menos mortífero, menos obediente ao Supereu, mais ético com a própria falta.
Talvez seja isso que o livro nos sussurra, entre um prato e outro: não é a fome que mata. É a ilusão de que ela pode, um dia, ser completamente satisfeita.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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