Perversão: quando o gozo desmente a lei e se escreve na linguagem
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Durante muito tempo, a palavra perversão foi capturada por um olhar moralizante, jurídico ou psiquiátrico, servindo para classificar comportamentos sexuais considerados desviantes da norma. O texto de Geraldino Alves Ferreira Netto mostra como a psicanálise opera um deslocamento decisivo: sai da lista de atos e entra no campo da posição subjetiva. Em Freud, a perversão não é um conjunto de práticas, mas uma maneira singular de o sujeito se posicionar diante da castração e da lei, a ponto de ele afirmar que a neurose é o negativo da perversão — aquilo que o neurótico recalca, o perverso sustenta à vista .
Esse deslocamento ganha consistência quando Freud abandona a lógica do instinto e introduz a noção de pulsão. A perversão deixa de ser entendida como desvio biológico e passa a ser pensada como uma escolha subjetiva, sustentada pelo mecanismo do desmentido (Verleugnung). O sujeito sabe da falta — da castração — mas, ao mesmo tempo, a nega. Daí a clivagem do eu: duas realidades opostas coexistem, sem se anularem. Não se trata de ignorância, mas de um saber recusado, sustentado por um artifício — o fetiche é o exemplo mais claro desse arranjo .
Com Lacan, esse debate dá um passo decisivo. A perversão é elevada ao estatuto de estrutura clínica, ao lado da neurose e da psicose, e passa a ser compreendida como um fenômeno de linguagem. O que define a perversão não é o sexo em si, mas o uso do outro como instrumento de gozo, por meio de um jogo simbólico ambíguo, que Lacan chama de tapeação. O sujeito parece falar a língua comum, mas desloca os significantes, produzindo um mal-entendido intencional que beneficia seu próprio gozo. Aqui, a lei não é negada frontalmente; ela é cumprida “à sua maneira”, numa inversão em que o imaginário se sobrepõe ao simbólico .
O texto também evidencia como a história cultural relativiza qualquer tentativa de naturalizar a perversão: práticas sexuais, mutilações, formas de amor e de gozo foram ora condenadas, ora idealizadas, conforme o tempo e a cultura. Essa variação histórica reforça a tese psicanalítica de que não estamos diante de uma essência patológica, mas de modos de inscrição do sujeito na linguagem e na lei. Não por acaso, a psiquiatria contemporânea, influenciada pela psicanálise, abandona o termo “perversões” e retira a homossexualidade de seus manuais diagnósticos, tentando se livrar do peso moral que historicamente marcou essas classificações .
Pensar a perversão como estrutura é, portanto, retirar dela o estigma moral e recolocá-la no campo da responsabilidade subjetiva. Não é o ato que define o perverso, mas a posição que o sujeito ocupa na relação com o desejo, com o gozo e com o outro. Essa leitura nos obriga a abandonar respostas fáceis e nos convoca a uma escuta mais rigorosa: ali onde se grita “desvio”, a psicanálise pergunta qual é a lei que está sendo desmentida — e a serviço de qual gozo?
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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