Infância, trauma e constituição do sujeito

Quando a mentira protege: infância, luto e os limites da verdade

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 23:01

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🧐📄 *Textão de hoje* *Quando a mentira protege: infância, luto e os limites da verdade* Mentir na infância nunca é apenas mentir. Quando uma criança mente, ela não está simplesmente enganando o outro, mas tentando dar forma psíquica ao que ainda não consegue simbolizar. A mentira surge como um recurso, muitas vezes frágil, para lidar com perdas, angústias e experiências que excedem sua capacidade de elaboração. Antes de ser um problema moral, a mentira infantil é um fenômeno clínico. O texto “Mentiras na infância: criação, luto e negacionismo” nos convida a deslocar o olhar: a mentira pode ser uma criação psíquica, um modo de sustentar algo quando a realidade se torna excessivamente dura. Em contextos de luto — explícitos ou silenciosos — a criança pode mentir não para negar o real, mas para torná-lo suportável. A fantasia, nesse sentido, funciona como um espaço intermediário entre o que foi perdido e o que ainda não pode ser nomeado. Há mentiras que protegem. Protegem do desamparo, da ruptura abrupta do vínculo, da violência de uma verdade não metabolizada. Quando a criança inventa, exagera ou distorce, muitas vezes ela está tentando manter vivo um objeto amado, sustentar uma continuidade psíquica ameaçada. A mentira, então, não é ausência de verdade, mas um modo singular de produzir sentido diante da falta. O impasse começa quando o entorno adulto responde a essas mentiras apenas com correção, punição ou desmentido bruto. Ao exigir uma verdade “pura”, ignora-se que a criança ainda não dispõe dos recursos simbólicos necessários para sustentá-la. É nesse ponto que o texto articula a diferença entre a mentira como criação e o negacionismo. Quando o próprio ambiente se recusa a reconhecer perdas, violências ou conflitos, a mentira deixa de ser um recurso transitório da criança e passa a se articular a uma defesa coletiva rígida, que impede o trabalho do luto. Clinicamente, isso nos convoca a escutar a mentira infantil como mensagem, e não como falha. O que está sendo protegido? O que não pôde ser dito? Que verdade ainda não encontrou forma possível de existir? Em vez de desmontar a mentira, trata-se de acompanhar o caminho que ela abre para que algo do sofrimento possa, pouco a pouco, ser simbolizado. No fundo, o texto nos lembra que crescer implica perder — e que nem toda perda pode ser dita de imediato. Entre a criação e o negacionismo, a mentira infantil nos ensina que a psicanálise não trabalha para arrancar verdades, mas para criar condições de escuta onde elas possam emergir sem violência. Porque, às vezes, mentir é a única forma que a criança encontra para não desaparecer junto com aquilo que perdeu.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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