Clínica e técnica psicanalítica

Quando o outro vira droga

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:21

2 min de leitura
🧐📄 *Textão de hoje* Quando o outro vira droga Há vínculos que não se sustentam pelo encontro, mas pela urgência. Relações em que o outro deixa de ser sujeito e passa a funcionar como objeto: algo que se usa para calar a angústia, preencher o vazio, evitar o colapso interno. É disso que tratam os chamados relacionamentos adictivos: não de amor em excesso, mas de uma dependência que se organiza como vício, com seus picos de euforia, quedas abruptas, abstinência emocional e repetição compulsiva . Na lógica da adição, o parceiro ocupa o lugar de uma droga emocional. Freud já indicava que as adicções não se reduzem ao comportamento, mas dizem respeito a fixações pulsionais, à busca de satisfação imediata e à dificuldade de suportar a frustração imposta pela realidade. Quando esse mecanismo se desloca para o campo amoroso, o vínculo deixa de ser espaço de troca e passa a funcionar como descarga: serve para aliviar tensões internas que o sujeito não consegue simbolizar . Melanie Klein ajuda a compreender por que esses laços tendem à violência, ao controle e à instabilidade. Muitos desses sujeitos permanecem fixados na posição esquizoparanoide, onde o outro é dividido entre totalmente bom ou totalmente mau. Amar, nesse registro, não é integrar, mas tentar possuir, controlar ou destruir aquilo de que se depende. A relação se sustenta não apesar do conflito, mas por meio dele. A briga, o ciúme e a invasão funcionam como tentativas desesperadas de manter o outro presente, ainda que à custa do sofrimento mútuo . Winnicott e Joyce McDougall aprofundam ainda mais esse ponto ao mostrar que, nesses casos, não se trata apenas de dependência do outro, mas de uma falha no desenvolvimento do self. Quando não se constitui a capacidade de estar só, o sujeito precisa de alguém para existir. O parceiro passa a ocupar o lugar de um objeto transicional falho: em vez de favorecer amadurecimento e separação, aprisiona. A dependência amorosa, então, aparece como tentativa de autocura, uma solução única e precária para lidar com angústias primitivas, perdas não elaboradas e experiências precoces de abandono ou intrusão . Por isso, sair de um relacionamento adictivo não é simples — e tampouco se resolve apenas com a ruptura externa. O verdadeiro trabalho é interno: construir um eu que suporte a falta, reconhecer a diferença entre amor e necessidade, transformar o outro de droga em sujeito. Onde há vício, não há encontro; há urgência. E só quando a urgência cede é que o amor, propriamente dito, pode começar.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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