Subjetividade contemporânea

A Arte de Amar em Tempos de Mercado

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 14:13

2 min de leitura
🥰📄 *Textão do dia* *A Arte de Amar em Tempos de Mercado* Há uma pergunta que Erich Fromm faz há mais de meio século e que continua desconfortavelmente atual: será que o amor é uma arte ou apenas um acontecimento? Para a maioria de nós, parece mais fácil acreditar que amar é uma questão de sorte, de encontrar a pessoa certa, de viver aquele encontro mágico que resolverá nossas faltas. Mas Fromm inverte a pergunta. Talvez o problema não seja encontrar alguém para amar. Talvez o problema seja aprender a amar. Vivemos numa época que nos ensina a desenvolver competências para quase tudo. Aprendemos a trabalhar, negociar, produzir, vender nossa imagem e administrar nosso tempo. Entretanto, raramente somos ensinados a cultivar aquilo que sustenta os vínculos humanos: atenção, escuta, cuidado, presença e responsabilidade. O amor é tratado como emoção espontânea, quando talvez devesse ser compreendido como uma prática que exige disciplina e maturidade. Do ponto de vista psicanalítico, essa reflexão é profundamente relevante. Freud já havia mostrado que amar implica deslocar-se do narcisismo em direção ao reconhecimento do outro. Winnicott diria que só conseguimos amar de forma criativa quando tivemos a oportunidade de habitar relações suficientemente boas. E Fromm acrescenta algo essencial: amar não é apenas sentir. Amar é um modo de estar no mundo. Talvez por isso tantas relações fracassem. Confundimos o encantamento inicial com a capacidade de sustentar um encontro ao longo do tempo. Apaixonar-se pode acontecer em um instante. Construir intimidade, atravessar frustrações e permanecer presente diante da alteridade exige algo muito mais difícil. Exige trabalho psíquico. Em uma cultura que transforma tudo em mercadoria, inclusive as relações humanas, passamos a procurar parceiros como quem busca produtos em uma vitrine. Avaliamos, comparamos, descartamos e substituímos. Mas o amor verdadeiro não nasce da lógica da troca. Ele nasce da capacidade de reconhecer a singularidade do outro sem tentar possuí-lo. Talvez a pergunta mais importante não seja: “Quem me ama?”. Talvez seja: “Estou me tornando alguém capaz de amar?”. Porque, no fim das contas, o amor não é um prêmio concedido aos afortunados. É uma arte. E toda arte exige dedicação, humildade e coragem para ser aprendida.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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