Cultura, literatura e sociedade

O preço de querer controlar tudo

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:03

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🧐📄*Textão do dia* *O preço de querer controlar tudo* Adorno e Horkheimer iniciam um de seus textos mais importantes com uma afirmação perturbadora: “o programa do iluminismo era o de livrar o mundo do feitiço”. A promessa era simples e sedutora: quanto mais conhecimento acumulássemos, mais livres seríamos. No entanto, eles observam que a terra completamente iluminada passou a resplandecer “sob o signo do infortúnio triunfal”. Essa reflexão dialoga profundamente com a psicanálise. Freud mostrou que existe em nós uma dimensão que não se submete inteiramente à razão. O inconsciente não desaparece porque compreendemos um conceito, lemos um livro ou dominamos uma técnica. Há algo em nós que insiste, repete, sonha e deseja para além da consciência. Vivemos em uma época marcada pela busca incessante de controle. Queremos controlar o corpo, o humor, a produtividade, os relacionamentos e até mesmo o sofrimento. Mas a clínica frequentemente nos ensina que o excesso de controle pode se transformar em uma nova forma de prisão. Quanto mais tentamos eliminar toda incerteza, mais nos afastamos da experiência viva de existir. Adorno afirma que “o que os homens querem aprender da natureza é como aplicá-la para dominar completamente sobre ela e sobre os homens”. Talvez possamos ampliar essa crítica e perguntar: quantas vezes tentamos dominar também a nós mesmos? Quantas vezes tratamos nossas emoções como problemas a serem eliminados em vez de mensagens a serem escutadas? A psicanálise segue um caminho diferente. Ela não busca transformar o sujeito em uma máquina eficiente nem oferecer respostas rápidas para os impasses da existência. Seu trabalho consiste em criar um espaço onde aquilo que foi silenciado possa finalmente encontrar palavras. Há uma frase de Adorno que continua extremamente atual: “o iluminismo é totalitário”. Não porque a razão seja um problema, mas porque ela se torna perigosa quando acredita ser capaz de explicar tudo e controlar tudo. Talvez amadurecer não seja alcançar uma vida perfeitamente organizada. Talvez seja desenvolver a capacidade de conviver com aquilo que permanece desconhecido em nós. Afinal, é justamente nesse território não totalmente iluminado que habitam o desejo, a criatividade, os sonhos e a singularidade de cada sujeito. A análise não nos promete o controle absoluto da vida. Ela nos oferece algo mais humano: a possibilidade de habitar, com menos medo, os mistérios que nos constituem.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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