Teoria e conceitos

Do Recalque ao Brincar: A Ampliação Winnicottiana do Inconsciente

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 06:47

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🧐📄 *Textao de Hoje* *Do Recalque ao Brincar: A Ampliação Winnicottiana do Inconsciente* Freud nos legou o inconsciente como o “psíquico propriamente real”, o território das representações recalcadas que sustentam os sintomas, os sonhos e os atos falhos. É o inconsciente reprimido, estruturado em torno do recalque — o mecanismo de defesa que, segundo ele, define o campo da neurose. Mas Winnicott vai além. Ele não nega Freud; ele amplia o horizonte, abrindo espaço para uma dimensão do inconsciente que antecede a própria possibilidade de repressão. Leopoldo Fulgencio mostra que, para Winnicott, “não sendo conscientes, os bebês não podem ser inconscientes”, pois o inconsciente só faz sentido quando já existe uma consciência que possa recalcá-lo. Antes disso, o que há é uma realidade psíquica fundida ao corpo, marcada por vivências que ainda não podem ser simbolizadas — mas que, mesmo assim, marcam o ser. Winnicott chama atenção para essas experiências primitivas — vividas mas não experienciadas — que ficam “guardadas no inconsciente, não exatamente reprimido, mas como acontecimentos que não puderam ser integrados”. São fragmentos de existência congelados por falhas ambientais, “agonias impensáveis”, momentos em que “algo poderia ter acontecido e não aconteceu”. Esse é o inconsciente não-acontecido, uma espécie de memória do que faltou. Nas palavras de Winnicott: “Trata-se de um fato que se carrega consigo, escondido no inconsciente. Este último aqui não é exatamente o inconsciente reprimido da psiconeurose.” Aqui, o inconsciente não é depósito de representações, mas um espaço de modos de ser. Fulgencio observa que, para Winnicott, ele se manifesta na capacidade de ter fé, de brincar, de confiar no ambiente — dimensões do viver que não passam pela linguagem, mas pela experiência relacional. “O brincar é uma forma de comunicação que leva ao encontro de si mesmo e do outro. A psicanálise é uma forma altamente especializada de brincar.” (Winnicott, 1971) Enquanto o inconsciente freudiano nasce do conflito, o winnicottiano nasce da continuidade do ser. Ele não é apenas o lugar do reprimido, mas o campo do potencial — daquilo que ainda pode ser vivido, integrado, simbolizado. É o inconsciente como base da criatividade, sustentado por um ambiente que permita o gesto espontâneo e o surgimento do self verdadeiro. “Um tratamento bem-sucedido de um psicótico permite que o paciente comece a viver e a experimentar as dificuldades inerentes à vida.” (Winnicott, 1988) Assim, o analista, diante desse inconsciente primário, não interpreta — ele sustenta. Ele cria as condições para que o paciente possa, enfim, viver o que não pôde ser vivido. Fulgencio nos convida a repensar o inconsciente não como um “porão da mente”, mas como um campo de ser e de vir-a-ser. Em Freud, o inconsciente é o reprimido. Em Winnicott, ele é também o não acontecido, o modo de ser, o espaço do brincar.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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