Clínica e técnica psicanalítica

Neurose, Não Neurose e a Arte de Escutar o Sofrimento

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 06:48

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🧐📄 *Textão do dia* *Neurose, Não Neurose e a Arte de Escutar o Sofrimento* Na formação psicanalítica, é comum nos aprofundarmos na vasta teoria — Freud, Klein, Bion, Winnicott, Green — e ainda assim nos vermos diante do consultório sem uma ponte sólida entre o que estudamos e o que de fato escutamos dos pacientes. É justamente essa ponte que Marion Minerbo propõe ao trabalhar a psicopatologia psicanalítica como articulação viva entre a metapsicologia e a prática clínica. Em sua perspectiva, não tratamos de doenças classificáveis, mas de formas de subjetividade: modos singulares de ser, sentir, sofrer e viver. Assim, neurose e não neurose não são categorias rígidas, e sim lógicas de existência que surgem do encontro entre o sujeito e sua cultura, orientando sua maneira de lidar com o outro, com o desejo e com a dor. Quando falamos em neurose, estamos diante de uma subjetividade estruturada simbolicamente, na qual os conflitos edipianos, o recalque e o superego exercem força determinante. O neurótico sofre porque deseja — e paga o preço disso. Já nas não neuroses — estados-limite, adições, patologias do vazio, compulsões, somatizações e modos de agir onde o simbólico vacila — o sofrimento nasce de falhas na constituição do narcisismo, de brechas na própria experiência de existir. Aqui, a dor não é a do desejo, mas a da viabilidade da própria vida psíquica. Minerbo nos lembra que cada época dá forma ao seu sofrimento predominante: na sociedade disciplinar do passado, a neurose clássica ocupava o centro; na pós-modernidade, onde as instituições já não sustentam simbolicamente o sujeito, proliferam as não neuroses. Em ambos os casos, porém, o sintoma permanece como tentativa criativa do psiquismo para seguir adiante, mesmo que à custa de sofrimento. O sintoma tem, portanto, uma face positiva — é uma invenção — e uma face negativa — cristaliza repetições e limitações que empobrecem o mundo do sujeito. Por isso, a escuta analítica não se reduz a acolher a queixa declarada, mas a perseguir os detalhes que escapam, aquilo que denuncia o infantil vivo no adulto. O analista não busca o que falta ao paciente, mas como ele inventou sobreviver. O trabalho se dá sempre em uma relação: ninguém adoece só, e é o campo intersubjetivo que desaba quando o sujeito não encontra reconhecimento e inscrição simbólica em sua história. A clínica é então o lugar onde esse campo pode ser reconstruído pela via da transferência. Na prática, o papel do analista é ser interlocutor da invenção do sujeito. Não se trata de julgar ou corrigir, mas de recortar o que se repete e abrir brechas para que o infantil não simbolizado possa ser traduzido, transformado e reinscrito. A psicopatologia psicanalítica, nessa concepção, não aprisiona o paciente em rótulos: ela afina o olhar do clínico, orienta a leitura da cena psíquica, dá bússola ao trabalho analítico. No fundo, o “normal” é apenas um modo entre tantos de existir no mundo. Neuróticos e não neuróticos são formas igualmente legítimas de sobreviver às marcas do desejo e ao encontro com o outro. O trabalho do analista é ajudar o sujeito onde sua criação emperrou — mas onde ainda insiste em pulsar. Como diz Minerbo, é preciso “olhar o muro velho com o olhar do fotógrafo”: encontrar o detalhe que revela uma história inteira. É nesse detalhe que, pouco a pouco, um novo mundo pode começar a aparecer.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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