Cultura, literatura e sociedade

A CARTA (E O SUJEITO) SEMPRE CAI NO LUGAR CERTO

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:52

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🧐📄 *Textão de hoje* *A CARTA (E O SUJEITO) SEMPRE CAI NO LUGAR CERTO* Lacan abre os Escritos com uma provocação: “O estilo é o próprio homem” — mas lembra logo em seguida que já não sabemos muito bem o que é esse “homem” ao qual o estilo se referiria. Para Lacan, o estilo não é sobre autenticidade psicológica nem expressão individual, mas sobre endereçamento — “o homem a quem nos endereçamos” . Ou seja, o discurso só ganha sentido quando encontra seu destino no Outro. O sujeito nasce nesse ato de retorno: o que eu digo me volta com a marca do desejo do Outro. E é por isso que Lacan escolhe começar este livro com “A Carta Roubada”, de Edgar Allan Poe: uma história que demonstra que a verdade do sujeito está no percurso do significante — não na intenção, nem na psicologia dos personagens . Na análise do conto, Lacan enfatiza: > “É a ordem simbólica que é constituinte para o sujeito” A carta — o objeto simbólico — circula entre Rainha, Ministro e Dupin. Cada um acredita tê-la sob controle, mas na verdade estão dominados por ela. Os sujeitos mudam de posição conforme a carta muda de lugar. Ela faz o sujeito — e não o contrário. Por isso, o importante não é o conteúdo, nem o segredo que ela contém. Aliás, Lacan diz que “nada nos é dito sobre o remetente e o conteúdo da carta” . O que importa é que: > o significante é robusto, continua sendo o que é mesmo quando se tenta mascará-lo ou arrancá-lo de seu contexto. Podem rasgar, esconder, trocar a carta por outra: ela continuará funcionando como significante. Porque o significante não é funcional — ele é estrutural, é o que organiza o desejo e o laço social. Lacan ironiza a polícia: ela “não encontra nada porque só procura o que pode ser escondido no real”. Mas o significante não se esconde no real — ele se desloca no simbólico: > “Para que haja carta roubada, não se pode dizer que ela esteja ou não esteja em algum lugar — e sim que ela estará e não estará onde estiver.” E assim como a carta, o sujeito é deslocado, dependendo de onde está o significante. Ele muda de posição, de lugar de enunciação, de poder. Ele é dividido e barrado, sempre entre a verdade e o saber. O sujeito do inconsciente está sempre um pouco atrasado em relação ao significante que o governa. A carta sempre chega ao seu destino — mesmo quando “roubada”. No fundo, o que essa fábula nos ensina é simples e devastador: > Não somos donos do que dizemos — somos ditos pelo que nos atravessa. E talvez seja por isso que Lacan abre sua obra maior com essa parábola: para que já entremos sabendo que o sujeito está em jogo antes que possamos supor governá-lo. Somos apenas um efeito no percurso de uma carta que corre, insiste e retorna — às vezes sem que a gente sequer perceba que éramos seus portadores.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Jacques Lacan