Teoria e conceitos

Ler Lacan com Žižek: por que o inconsciente ainda importa

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 19:13

3 min de leitura
🧐📄 *Textão de Hoje* *Ler Lacan com Žižek: por que o inconsciente ainda importa* Ler Lacan através de Slavoj Žižek é entrar num campo onde psicanálise, filosofia, política e cultura pop se atravessam sem pedir licença. Žižek começa justamente lembrando que a psicanálise coleciona “funerais” anunciados: a neurociência, os psicofármacos, a sociedade permissiva… todos teriam decretado sua morte. Mas, se olharmos com Lacan, vemos que é exatamente hoje que a psicanálise se torna ainda mais necessária para compreender nossos sintomas e mal-estares contemporâneos. O ponto decisivo que Lacan retoma de Freud não é a ideia do inconsciente como depósito de impulsos irracionais, mas como um discurso estruturado: “o inconsciente fala e pensa”. Isto quer dizer que aquilo que mais escapa ao sujeito segue uma lógica, possui uma gramática, pode ser lido. É por isso que Lacan insiste: “Onde isso estava, devo advir”, não para encontrar uma verdade plena e confortável sobre nós, mas sim para encarar a verdade que nos angustia, aquela que preferimos evitar. Žižek destaca que Lacan não faz da psicanálise um instrumento de adaptação social, mas uma prática que confronta o sujeito com seus impasses de desejo. Não se trata de tornar alguém mais funcional, mas de aproximar a vida de um desejo que lhe é próprio — e que sempre desencontra o sentido comum. Outro ponto decisivo: Lacan não foi repetir Freud, foi revolvê-lo com outras ferramentas — Saussure, Lévi-Strauss, Hegel, a matemática dos conjuntos… O resultado? Conceitos novos como o Real, o Imaginário e o Simbólico, o grande Outro, o sujeito barrado. Uma teoria que nos obriga a reconhecer que a realidade não é dada — ela é construída, mediada pela linguagem, cheia de furos e fantasmas. E é aqui que Žižek faz seu movimento mais potente: usar Lacan para ler o mundo, não para hermetizá-lo. Se hoje vivemos sob uma avalanche de discursos sobre autoaperfeiçoamento, felicidade compulsória, performance e controle — o simbólico continua cambaleando, o Real insiste na forma de notícias que nos inquietam, de sintomas que retornam, de ansiedades que não se resolvem. A psicanálise permanece viva porque os sujeitos continuam sofrendo dos mesmos impasses: o desejo nunca se encaixa nas promessas do mercado, do sucesso ou da ciência. Por isso Žižek convoca: é preciso seguir lendo Lacan, não para repeti-lo como um dogma, mas para continuar produzindo dissidência, mantendo viva a chama freudiana contra qualquer tentativa de reduzir o sujeito a um cérebro, um algoritmo ou um consumidor. A psicanálise, nas mãos de Lacan e Žižek, lembra que há sempre algo que escapa, algo sem nome que insiste — e é nisso que reside nossa singularidade. A verdade não é tranquila, mas é a única coisa que pode nos livrar da mentira confortável sobre nós mesmos.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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