Desejo, prazer e a defesa do mistério na clínica contemporânea
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*Desejo, prazer e a defesa do mistério na clínica contemporânea*
Os textos de Ruggero Levy nos colocam diante de um deslocamento decisivo do mal-estar contemporâneo: se, no tempo de Freud, o sofrimento se organizava em torno da repressão do desejo, hoje ele emerge, paradoxalmente, do **esvaziamento do simbólico**. Não é mais o excesso de proibição que adoece, mas o excesso de exposição, de estímulo, de transparência e de satisfação imediata.
Desejo e prazer não são sinônimos. O desejo é uma moção psíquica, estruturada pela falta, pela espera e pela simbolização. Ele nasce da transformação das experiências corporais em representações, fantasias e pensamentos. O prazer, por sua vez, quando não atravessado pela simbolização, reduz-se à descarga, ao alívio imediato, ao gozo sem inscrição psíquica. É nesse ponto que Ruggero Levy identifica um traço central da subjetividade pós-moderna: **prazer sem satisfação**.
A cultura da imagem, da velocidade e da disponibilidade total do objeto atinge diretamente os processos simbólicos. Quando tudo é mostrado, nada mais pode ser imaginado. Quando não há distância entre o desejo e sua realização, não há espaço para o pensamento. O mistério — entendido aqui não como moralismo, mas como condição ontológica do desejo — é eliminado. E, sem mistério, o desejo empobrece.
A consequência clínica desse processo é profunda. O sujeito contemporâneo tende a funcionar mais pela via do acting out do que do conflito psíquico. A insatisfação não se transforma em pergunta, mas em compulsão. A dor não se elabora, evacua-se. O sexual, quando não simbolizado, converte-se em consumo, performance ou adicção. O outro deixa de ser sujeito e passa a ser objeto de uso.
Ruggero Levy articula esse fenômeno com as contribuições de Bion, Meltzer e Winnicott. Quando a função simbólica falha, a mente deixa de “digerir” as experiências emocionais e passa a operar de modo protomental, quase maquinal. O resultado é um sujeito insaciável, que busca repetidamente o prazer, mas não alcança satisfação psíquica. Vive-se muito, sente-se pouco e pensa-se menos ainda.
Nesse contexto, a psicanálise assume uma função contracultural. Se Freud enfrentou a cultura da repressão, hoje o desafio é enfrentar a **cultura da desmentalização**. A clínica torna-se um espaço de resistência ao imediatismo, à evacuação da dor e à anestesia afetiva. O trabalho analítico passa, muitas vezes, por reconstruir um espaço mental onde sensações possam virar emoções, emoções possam virar pensamentos e pensamentos possam virar palavras.
Defender o mistério, como propõe Ruggero Levy, é defender a imaginação, o tempo psíquico e a possibilidade de subjetivação. É sustentar que nem tudo deve ser visto, dito ou satisfeito de imediato. Porque é justamente na ausência, no intervalo e na espera que o desejo se constitui — e com ele, o sujeito.
Talvez possamos dizer que, hoje, a tarefa da psicanálise é recolocar o humano no lugar onde a cultura insiste em substituí-lo por estímulos, objetos e performances. Ser, como já se disse, um verdadeiro relicário da palavra. Não para eliminar o sofrimento, mas para devolvê-lo ao campo do sentido.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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