Clínica e técnica psicanalítica

Adicção não é “falta de força”: é uma estratégia de sobrevivência quando a dependência fratura

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:20

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🧐📄 *TEXTÃO DO DIA* *Adicção não é “falta de força”: é uma estratégia de sobrevivência quando a dependência fratura* Há um equívoco clínico e cultural que custa caro: tratar dependência e adicção como sinônimos. No material do Dr. José Alberto Zusman, a distinção é direta e, ao mesmo tempo, profundamente humana: dependência é instinto e laço; adicção é estratégia e isolamento. A dependência, diz ele, é constitutiva da nossa espécie. Nascemos frágeis, e é justamente por isso que a dependência infantil com o cuidador vira protótipo do amor. Dependência não é patologia: é o eixo que permite a formação do Eu, as identificações, a empatia, a compaixão, a gratidão. Dependência madura é a capacidade de escolher de quem depender — e isso é autonomia real, não o mito heroico da independência. Já a adicção é outra coisa. Ela aparece quando há ameaças emocionais graves, quando a dor ultrapassa os recursos do eixo da dependência. A adicção não está interessada em “crescer”, mas em não morrer por dentro. Por isso ela é concreta, resistente, imediata. Ela promete alívio, mas cobra com juros: paralisa o movimento subjetivo, interrompe o desenvolvimento humano e substitui vínculo com pessoas por vínculo com objetos — álcool, comida, trabalho, jogo, celular, exercício, qualquer coisa que entorpeça e controle. A imagem da tartaruga é perfeita: diante do perigo, entrar no casco salva. Mas dentro do casco não há encontro, não há expansão, não há futuro. A pessoa sobrevive — mas não vive plenamente. E o tempo da adicção é sempre o “agora”. Sem projeto, sem amanhã, sem espera. Quem sofre não espera. Por isso, talvez a frase mais clínica de todas seja esta: quando você vê uma pessoa adicta, não pergunte qual é a droga; pergunte onde está doendo. O foco não é o objeto — é a ferida. O problema não é o que a pessoa usa, mas a relação que ela estabelece com o objeto, tratado como se fosse humano: presença substitutiva, amor químico, colo anestésico, promessa de segurança. E aqui vem uma das ideias mais fortes: somos todos potencialmente adictos. Todos nós podemos, em momentos de dor intensa, recorrer a um recurso adictivo. Um copo num luto, um excesso para aguentar uma semana, uma fuga momentânea. Isso não define adicção. O que define é a frequência, o tempo de permanência e a perda do caminho de volta. Quando a pessoa fica no fundo da piscina e esquece como subir. No consultório, isso muda tudo. O analista, em certo momento, será vivido como droga: um objeto para acalmar, para preencher, para resolver rápido. E o tratamento é difícil porque pede justamente o que a adicção destruiu: a possibilidade de vínculo humano. É um trabalho de reumanização. Um trabalho de linguagem. Um trabalho de suportar o “deserto” — inclusive aquele tédio, aquela sonolência, aquele vazio que aparece quando o eixo adictivo tomou conta do campo e as palavras somem. E talvez a sentença que fecha o circuito seja a mais simples e a mais devastadora: o oposto da adicção é a conexão. Não qualquer conexão, mas a conexão entre seres humanos. Conexão que reconhece, que sustenta, que não rotula, que não reduz a pessoa ao sintoma. Porque o adicto já vive aprisionado na vergonha e no isolamento — e o julgamento só adiciona dor à dor. Hoje, se eu tivesse que resumir o gesto clínico que emerge desses textos, seria assim: a adicção é uma tentativa de sobreviver a uma dor sem palavras. A clínica é o encontro que devolve palavras à dor e pessoas ao lugar de objetos. E o caminho não é “ser independente”, mas voltar a depender de modo humano: com escolha, laço e reciprocidade. Porque, quando o sofrimento vira solidão, a adicção parece solução. Mas quando a dor encontra um outro humano, ela pode, enfim, virar história.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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