Subjetividade contemporânea

O virtual não é o irreal, é o que pede passagem

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:36

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🧐📄*TEXTÃO DO DIA* *O virtual não é o irreal, é o que pede passagem* Em *O que é o virtual?*, **Pierre Lévy** nos convida a desfazer um dos equívocos mais comuns do nosso tempo: **virtual não é o contrário de real**. Virtual não é ilusão, fuga ou empobrecimento da experiência. Virtual é aquilo que **existe em potência**, aquilo que ainda não se atualizou, mas já exerce efeitos, convoca escolhas e reorganiza o mundo. Lévy mostra que virtualizar não é desmaterializar. É deslocar o centro da experiência. Quando algo se virtualiza, ele não desaparece — ele **ganha novos modos de existência**. A escrita virtualizou a memória. O dinheiro virtualizou a troca. As instituições virtualizaram a presença. O digital apenas intensifica um movimento antigo da humanidade: viver não apenas no que é dado, mas no que pode vir a ser. O virtual introduz indeterminação, abertura, multiplicidade. Ele rompe com a ideia de forma fixa e definitiva. Por isso assusta. Onde não há fechamento, não há garantia. Onde não há garantia, surge a angústia. Não é o virtual que produz o mal-estar contemporâneo, mas **a dificuldade de sustentar a instabilidade que ele revela**. Lévy insiste: virtualizar é um gesto criativo. É retirar algo de uma forma rígida para recolocá-lo em um campo de problemas, relações e sentidos. O virtual não empobrece o real; ele o **complexifica**. Mas essa complexificação exige trabalho psíquico, simbólico e coletivo. Exige suportar o inacabado. Do ponto de vista subjetivo, viver em um mundo virtualizado é viver em permanente processo de atualização. Identidades, saberes, vínculos e narrativas deixam de ser herdados como certezas e passam a ser construídos como trajetórias. Isso pode ser libertador — mas também exaustivo. Onde tudo é possível, nada está garantido. E o sujeito precisa inventar consistência onde antes havia moldura. Talvez por isso tantos sofrimentos atuais se organizem em torno do excesso, da dispersão, da sensação de irrealidade ou vazio. Não porque o mundo tenha “virado virtual”, mas porque **o virtual escancarou aquilo que sempre esteve em jogo: a instabilidade do sentido**. *O que é o virtual?* nos lembra que a tarefa contemporânea não é recusar o virtual nem idealizar um retorno ao “concreto perdido”. A tarefa é outra: **aprender a habitar a potência sem exigir fechamento**, sustentar a abertura sem colapsar, criar sentido sem precisar de garantias absolutas. O virtual não é fuga do real. É o real pedindo para ser reinventado.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Pierre Lévy