O pai assassinado e o pai morto
🧐📄TEXTÃO DO DIA
*O pai assassinado e o pai morto*
O texto Pai assassinado, pai morto nos convida a pensar algo fundamental para a clínica contemporânea: nem sempre o pai está ausente porque nunca existiu — às vezes ele precisou ser “morto” psíquicamente para que o sujeito pudesse sobreviver. Há pais que não exercem a função simbólica de limite e mediação; exercem apenas presença invasiva, violenta, humilhante ou esmagadora. Nesses casos, o assassinato do pai não é um crime simbólico, mas uma tentativa de salvação.
O pai assassinado não é aquele que falhou por ausência, mas aquele que falhou por excesso. Um pai que não introduz a lei, mas se confunde com ela; que não separa, mas captura; que não autoriza o desejo, mas o interdita de forma mortífera. Para o sujeito, resta uma saída extrema: matar o pai internamente para não desaparecer junto com ele.
Já o pai morto é outra coisa. É aquele que, tendo exercido sua função, pode cair, faltar, desaparecer. Sua morte simbólica não destrói o sujeito — ao contrário, organiza o campo do desejo. É a morte necessária para que o sujeito viva. Aqui, a perda é estruturante, não traumática.
O texto mostra que muitos sofrimentos atuais — depressões graves, passagens ao ato, acting-outs, dificuldades com autoridade, culpa difusa, vazio — não se explicam apenas por “ausência paterna”, mas por pais impossíveis de serem simbolizados. Pais que não puderam ser mortos no tempo certo e, por isso, precisaram ser assassinados tardiamente, de forma violenta e desorganizadora.
Na clínica, isso muda tudo. Nem sempre o trabalho é “restaurar o pai”. Muitas vezes, é autorizar o luto por um pai que nunca pôde existir como função. É ajudar o analisando a construir um pai simbólico onde só houve tirania, medo ou silêncio. É sustentar que o ódio ao pai pode ser um operador de sobrevivência — e não um sintoma moralmente condenável.
Pai assassinado, pai morto nos lembra que a função paterna não é uma pessoa, mas uma operação psíquica. E quando essa operação falha, o sujeito inventa saídas precárias para continuar existindo. A tarefa da análise não é julgar essas saídas, mas transformar assassinato em luto, violência em palavra, e sobrevivência em desejo.
Às vezes, só depois que o pai pode finalmente “morrer” é que o sujeito começa, de fato, a viver.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
Reprodução integral do texto original, incluindo marcas de formatação e eventuais avisos de edição do WhatsApp. Sem correção ou reescrita.
Falar comigo