O suicídio não é desejo de morte, é fuga do insuportável
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*O suicídio não é desejo de morte, é fuga do insuportável*
Quando falamos em suicídio, o senso comum insiste em reduzir tudo a uma decisão consciente de morrer. O livro *O que é suicídio*, de Roosevelt M. S. Cassorla, desmonta essa ideia de forma contundente: **o suicida não busca a morte — busca o fim do sofrimento**. A morte aparece como fantasia, como promessa imaginária de descanso, alívio, vingança ou reencontro, mas quase nunca como um “nada absoluto”.
Cassorla mostra que o ato suicida nasce de uma **intensificação dos instintos de morte**, presentes em todos nós, quando os instintos de vida perdem força diante de conflitos internos e pressões externas. O suicídio pode ser consciente ou inconsciente, total ou parcial. Há sujeitos que se “matam” aos poucos: no corpo adoecido, no prazer bloqueado, na criatividade anulada, na vida reduzida à sobrevivência. Antes do gesto extremo, muitas vezes já houve uma longa história de **autodestruição silenciosa**.
Um ponto central do livro é a dimensão **agressiva** do suicídio. O ato não se dirige apenas contra si, mas também contra o outro e contra o ambiente. Há fantasias de vingança, de culpa imposta aos sobreviventes, de “assistir” ao próprio funeral e finalmente ser reconhecido, amado, lamentado. O suicida paga com a própria vida o preço de tornar real essa fantasia — ainda que, paradoxalmente, nela permaneça vivo.
Cassorla também desmonta a explicação simplista das “causas aparentes”. Brigas, perdas, fracassos e crises são, em geral, apenas a **gota d’água**. O que sustenta o gesto é uma rede de conflitos antigos, frequentemente enraizados na infância: vivências de abandono, rejeição, desamparo, falhas ambientais precoces. O sofrimento atual reativa um terror antigo, e o suicídio surge como fuga — não para a morte, mas **para longe de algo vivido como intolerável**.
Outro ponto perturbador do livro é a crítica à sociedade e às instituições. O desprezo, a banalização e até o maltrato do suicida — inclusive em serviços de saúde — revelam o quanto o ato confronta o ideal social de vida e produtividade. Uma sociedade que não escuta, não acolhe e não oferece redes reais de cuidado **também participa do processo suicida**, ainda que prefira negar essa responsabilidade.
No fundo, Cassorla nos obriga a encarar uma verdade incômoda: **o suicídio fala da condição humana**, não de uma exceção monstruosa. Ele revela o quanto a vida pode tornar-se insuportável quando o sofrimento não encontra simbolização, escuta e amparo. A tarefa ética — clínica, social e política — não é julgar o ato, mas criar condições para que o sujeito não precise escolher a morte para tentar, desesperadamente, viver.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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