Clínica e técnica psicanalítica

Ou criamos, ou morremos

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:37

3 min de leitura
🧐📄 *Textão de hoje* *Ou criamos, ou morremos* No texto *Contando do começo*, **Vera Lucia Colussi Lamanno Adamo** nos oferece algo raro: um testemunho clínico sobre a formação do analista que não se organiza por técnicas ou conceitos isolados, mas pela experiência viva de aprender a sustentar medo, morte, paixão e criatividade no encontro analítico. O texto nos lembra que a psicanálise não se transmite apenas por teoria, mas por aquilo que se vive, se suporta e se transforma na relação com o outro. A autora parte da clínica com Ana — personagem que oscila entre uma vida organizada, anestesiada, e momentos de ruptura em que o psiquismo ameaça transbordar. A chamada “hora perigosa” surge como metáfora clínica potente: o instante em que a vida psíquica, mantida sob controle, ameaça se abrir para o caos, o desejo e o medo da desintegração. Não se trata de patologia no sentido clássico, mas do risco inerente a estar vivo psíquicamente. Ao recorrer à literatura de Clarice Lispector, Ana encontra palavras para dizer o indizível. A literatura aparece, então, como via de simbolização quando o sujeito se aproxima do limite entre viver e morrer psíquicamente. A pergunta “Clarice Lispector se suicidou?” não é curiosidade biográfica; é uma interrogação existencial: é possível suportar a intensidade da vida psíquica sem sucumbir? É possível desejar, criar e permanecer vivo? O texto articula esse dilema com precisão: quando o excesso de angústia não encontra vias de simbolização, o psiquismo pode buscar refúgio na anestesia, no imobilismo, no que André Green nomeou como narcisismo negativo — uma defesa que visa não à vida, mas ao zero de excitação, à morte psíquica. Ana aprende, desde cedo, a “fazer galinhas dormirem”: metáfora sensível de um funcionamento que adormece conflitos, desejos e afetos para preservar a integridade do eu. A análise, no entanto, introduz fissuras nesse adormecimento. Cada despertar é vivido como ameaça de perda de controle, de enlouquecimento, de fragmentação corporal. Ainda assim, é apenas atravessando esses estados que algo da criatividade pode emergir. Criar, aqui, não é produzir arte, mas permitir que o psiquismo se mova, tolere o conflito e encontre novas formas de existência. O texto também é uma reflexão sobre a formação do analista. Vera Lamanno mostra que aprende psicanálise com sua paciente, com seus supervisores, com sua própria análise, com a literatura e com o silêncio. Aprende, sobretudo, a sustentar o corredor do silêncio — esse espaço em que o desejo de compreender nunca se realiza por completo, mas continua a mover o trabalho psíquico. “Ou criamos, ou morremos” não é um slogan romântico. É uma formulação clínica rigorosa. Criar significa suportar a tensão entre vida e morte, prazer e dor, movimento e paralisia. Morrer, aqui, não é o fim biológico, mas o apagamento da vida psíquica, a desistência do desejo, a fixação no imobilismo. Este texto nos lembra que a clínica psicanalítica não é um lugar de adaptação, mas de risco. Risco de sentir, de desejar, de existir. E que a tarefa do analista não é proteger o paciente desse risco, mas acompanhá-lo na travessia — sabendo que, em cada análise, algo do próprio analista também está em jogo. Aprender psicanálise, afinal, é aprender a não fugir da hora perigosa. É sustentar, com o outro, a possibilidade de que da proximidade com a morte psíquica possa nascer algo vivo, simbólico e criativo.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

André Green