Um corpo para dois
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Um corpo para dois
Antes de aprendermos a dizer “eu”, existimos profundamente ligados a um outro.
É a partir dessa experiência primitiva que Joyce McDougall desenvolve, em *Teatros do Corpo*, uma ideia provocadora: **“um corpo, um sexo, um psiquismo para dois”**. Nos primeiros tempos da vida, o bebê ainda não possui uma percepção suficientemente organizada de si como alguém separado da mãe. Corpo e psiquismo vão adquirindo fronteiras pouco a pouco.
Talvez seja justamente por isso que crescer não seja apenas aprender coisas sobre o mundo. Crescer também significa suportar uma descoberta difícil: **o outro não sou eu**.
A mãe se ausenta. Não deseja exatamente aquilo que a criança deseja. Possui interesses próprios. Há um corpo do outro e há o meu corpo. É nesse intervalo, inicialmente doloroso, que começa a nascer uma vida psíquica própria.
McDougall nos ajuda a perceber que essa separação nunca é apenas física. Para que alguém possa habitar o próprio corpo, precisa também construir um espaço interno no qual sentimentos, desejos, frustrações e conflitos possam ser reconhecidos como seus. A experiência de separação participa, portanto, da construção da própria subjetividade.
Mas algumas experiências emocionais podem ser difíceis demais para serem pensadas. Quando faltam palavras, imagens ou fantasias capazes de representar aquilo que está sendo vivido, o sofrimento não simplesmente desaparece. É nesse ponto que a reflexão de McDougall se aproxima do psicossoma: **aquilo que não consegue encontrar lugar suficiente na vida psíquica pode buscar outra forma de expressão.**
E o corpo pode entrar em cena.
Talvez por isso algumas relações adultas carreguem algo dessa antiga experiência de “dois em um”. Separar-se parece desaparecer. A ausência parece abandono. O desejo do outro é vivido como condição para a própria existência.
A clínica, então, não busca simplesmente ensinar alguém a ser independente. Há algo mais delicado em jogo: ajudar o sujeito a construir um espaço interno no qual seja possível estar ligado sem estar fundido, amar sem desaparecer no outro e reconhecer o próprio corpo como lugar de uma existência singular.
Talvez amadurecer seja justamente isso: **descobrir que podemos continuar ligados ao outro sem precisar continuar sendo um só corpo.**
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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