Infância, trauma e constituição do sujeito

A constituição do eu na infância segundo a psicanálise do espelho

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:50

3 min de leitura
🧐📄*A constituição do eu na infância segundo a psicanálise do espelho* O livro *A Criança e o Espelho* apresenta uma série de entrevistas e análises que abordam a constituição psíquica da criança a partir da teoria do estádio do espelho. O texto se desenvolve em torno da experiência do reconhecimento da própria imagem como etapa fundamental para o surgimento do eu. No início, é introduzido o conceito de imagem especular como uma estrutura que antecede a simbolização. “O espelho é o lugar da imagem. E a imagem, antes de ser simbólica, é uma imagem especular” (p. 19). O reconhecimento da imagem reflete a relação da criança com o Outro e consigo mesma. A obra enfatiza que o estádio do espelho não se reduz à percepção visual, mas implica uma dimensão simbólica e relacional. “O espelho em si não basta. É necessário que um adulto, em geral a mãe, esteja presente e valorize a imagem” (p. 20). O eu emerge no campo do olhar e do desejo do Outro. A alienação da imagem é discutida como ponto de partida da constituição subjetiva. “A criança se vê como sendo outra. É uma imagem exterior a ela mesma” (p. 25). O sujeito se identifica com uma imagem ideal, mas externa, o que inaugura a divisão psíquica. O texto aborda a questão da nomeação como ato simbólico que sustenta a imagem. “É necessário que o Outro diga: ‘olha você aí’, ‘é você’” (p. 24). O reconhecimento depende do discurso do Outro, não apenas da visão do reflexo. Nasio explica que a função especular se articula à imagem do corpo. “A criança vive seu corpo de forma fragmentada. É o espelho que dá uma imagem unificada desse corpo” (p. 27). Essa imagem é ao mesmo tempo estruturante e enganadora. O livro também trata do papel da linguagem. A entrada no simbólico ocorre quando o significante nomeia a imagem. “É o significante que transforma a imagem em representação do eu” (p. 28). O sujeito não é idêntico à sua imagem, mas se constitui por meio da linguagem. A distinção entre imagem especular, imagem narcisista e imagem inconsciente é apresentada como chave para entender os efeitos psíquicos do espelho. “A imagem narcisista é aquela com a qual o sujeito se identifica. A inconsciente é a que o representa sem que ele saiba” (p. 38). Na clínica, os autores observam que a função do espelho é retomada simbolicamente na relação analítica. “A escuta do analista funciona como um espelho simbólico que devolve ao sujeito sua própria verdade” (p. 42). A construção do eu pode ser revisitada no trabalho psicanalítico. O texto termina com a afirmação de que o eu é uma ficção necessária. “O eu é construído sobre uma imagem. Ele é uma ilusão, mas uma ilusão vital” (p. 45). Essa ilusão funda a possibilidade de se situar no mundo e de se reconhecer como sujeito. --- **Referência**: NASIO, Juan-David; DOLTO, Françoise. *A criança e o espelho*. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

Reprodução integral do texto original, incluindo marcas de formatação e eventuais avisos de edição do WhatsApp. Sem correção ou reescrita.