O Complexo de Telêmaco e a Espera por um Pai que Testemunhe
🧐📄 *Textão do Dia*
*O Complexo de Telêmaco e a Espera por um Pai que Testemunhe*
Vivemos numa época curiosa: nunca se falou tanto em liberdade, autonomia e autenticidade — e nunca se viu tanta desorientação subjetiva. O que aconteceu com a figura do pai? Essa é a pergunta que atravessa a obra de **Massimo Recalcati** em *O Complexo de Telêmaco*. Não se trata de nostalgia do patriarcado, nem de defesa da autoridade tirânica. Trata-se de compreender o que acontece com o sujeito quando a função simbólica do pai se dissolve.
Durante muito tempo, a psicanálise foi guiada pelo paradigma de Édipo: o filho que precisa confrontar o pai, rivalizar, transgredir, desejar ocupar seu lugar. Mas Recalcati afirma que o nosso tempo já não é mais o tempo de Édipo. Não estamos mais diante de filhos que querem matar o pai. Estamos diante de filhos que não encontram pai algum. É a época da “evaporação do pai”, como já indicava Lacan.
Se o pai autoritário declinou — e isso é uma conquista civilizatória — algo também se perdeu: a transmissão simbólica. A Lei deixou de ser sustentada pela palavra e passou a ser substituída pelo imperativo do gozo. Hoje, não é mais “não pode” que estrutura o sujeito, mas “goze!”, “produza!”, “seja extraordinário!”. O problema não é o excesso de repressão, mas o excesso de liberdade sem direção.
É nesse cenário que surge Telêmaco. Diferente de Édipo, ele não mata o pai. Ele espera o pai. Não espera um herói glorioso, mas alguém que testemunhe que a vida pode ter um sentido. Telêmaco representa a juventude contemporânea que não quer um tirano, mas também não suporta a ausência. Quer alguém que sustente a palavra. Quer alguém que encarne o desejo.
A grande tese da obra é que a verdadeira herança não é material, nem biológica. Herdar é receber a transmissão do desejo. E essa transmissão só ocorre quando há alguém que testemunhe, com sua própria vida, que o desejo vale a pena. O pai que importa não é o pai-senhor, mas o pai-testemunha. Não aquele que impõe a Lei, mas aquele que encarna a Lei do desejo.
Na clínica, isso aparece de forma contundente: jovens sem horizonte, adultos sem referência, sujeitos capturados pela depressão, pela dependência, pela apatia ou pelo excesso de performance. O sintoma contemporâneo não é mais o conflito com a autoridade — é o vazio deixado por sua ausência. A confusão das gerações produz filhos que não sabem o que herdar.
Recalcati nos oferece uma leitura potente: não precisamos restaurar o passado. Precisamos reinventar a função paterna como transmissão simbólica. O complexo de Telêmaco é, no fundo, uma ética. A ética de sustentar a palavra. A ética de testemunhar o desejo. A ética de oferecer ao outro não um ideal inalcançável, mas uma presença responsável.
Talvez o maior desafio do nosso tempo não seja libertar-se do pai. Talvez seja tornar-se alguém capaz de transmitir algo.
E isso muda tudo.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
Reprodução integral do texto original, incluindo marcas de formatação e eventuais avisos de edição do WhatsApp. Sem correção ou reescrita.
Falar comigo