A sociedade que foge da dor, foge também da vida
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*A sociedade que foge da dor, foge também da vida*
Vivemos num tempo marcado pela algofobia: o medo generalizado da dor. Evitamos conflitos, contradições e até mesmo o incômodo dos afetos anestesiamos o corpo, a política e as relações humanas. Como lembra Byung-Chul Han, a dor tornou-se escândalo, algo a ser eliminado a qualquer custo.
Mas ao silenciá-la, perdemos sua potência crítica. A dor purifica, abre espaço para transformação, revela verdades incômodas. A política paliativa, orientada pelo consenso e pelo “curtir”, dissolve-se em anestesia social: likes substituem debate, felicidade vira obrigação, sofrimento é privatizado e tratado como falha individual.
A promessa neoliberal de bem-estar contínuo não liberta captura. “Seja feliz” torna-se o novo imperativo de dominação. A dor, que poderia unir, é convertida em sintoma a ser medicalizado. Em vez de revolução, produzimos depressão; em vez de comunidade, isolamento.
Han recorda que dor e felicidade são irmãos gêmeos (Nietzsche): suprimir um é empobrecer o outro. Só há intensidade de vida quando aceitamos o risco de atravessar o sofrimento. A anestesia social, ao contrário, nos condena ao “inferno do igual”, onde nada dói, mas nada verdadeiramente nos toca.
O desafio, então, não é eliminar a dor, mas aprender a escutá-la, a narrá-la, a deixar que se torne eloquente. A dor partilhada é também fermento de comunidade, abertura ao outro e possibilidade de transformação.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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