Confusão de línguas: ternura, paixão e trauma
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*Confusão de línguas: ternura, paixão e trauma*
Sándor Ferenczi, em seu célebre texto Confusão de línguas entre os adultos e a criança (1933), introduz uma das formulações mais impactantes sobre o trauma. Para ele, a relação adulto-criança pode se transformar em terreno de mal-entendidos fatais: a criança fala a língua da ternura, lúdica e imaginativa, enquanto o adulto responde com a língua da paixão, carregada de sexualidade e violência. Essa dissimetria inaugura o espaço da sedução incestuosa, da punição desmedida e do choque traumático .
O trauma, segundo Ferenczi, ocorre em dois tempos: o choque inicial, súbito, esmagador, que paralisa a capacidade de resistência e o desmentido, quando o adulto não reconhece a dor da criança, nega o acontecimento ou silencia sua experiência. É este segundo tempo que transforma o vivido em trauma patogênico: a criança, desautorizada, passa a duvidar de si mesma e de sua palavra .
Ferenczi destaca ainda mecanismos defensivos como a clivagem narcísica uma parte do eu que sobrevive em segredo e a identificação com o agressor, pela qual a criança se torna cúmplice forçada daquele que a violentou. Há também a chamada progressão traumática, em que a criança é obrigada a amadurecer precocemente, tornando-se “bebê sábio”, assumindo funções e responsabilidades que lhe roubam a espontaneidade .
Mas a originalidade de Ferenczi vai além da descrição clínica. Ele desloca a questão para a própria prática analítica. O risco, afirma, é que a análise repita a violência do desmentido: o analista, em sua posição de poder e saber, pode não ouvir a singularidade do paciente, impondo sua teoria como língua total. Essa crítica radical inaugura uma ética da hospitalidade: reconhecer o analisando como estrangeiro, com uma língua própria, que deve ser acolhida sem submissão nem ridicularização .
Assim, a contribuição de Ferenczi continua atual: lembrar que o trauma não é apenas o acontecimento em si, mas a forma como foi (ou não) acolhido. O que cura não é a interpretação fria, mas a possibilidade de um ambiente hospitaleiro, em que a palavra da criança ou do analisando encontre finalmente o lugar que lhe foi negado.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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