O amor, suas promessas e suas faltas
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*O amor, suas promessas e suas faltas*
Ana Suy semeia desconforto nos relacionamentos românticos
Há muitos motivos para sentir-se perdido no campo do amor. A psicanalista Ana Suy, em seu livro “A gente mira no amor e acerta na solidão”, dispara uma série de flechas contra o ideal romântico contemporâneo — e quase todas acertam em cheio.
A ideia de que o amor “cura tudo” nunca foi tão popular. Das redes sociais às playlists, tudo parece ecoar uma mensagem de completude e salvação. Mas a clínica mostra outra face: o amor também adoece, silencia, confunde.
“Amar não é livrar-se da falta, é confrontar-se com ela”, escreve Ana. E isso parece um contrassenso para tempos que demandam performance, assertividade emocional e satisfação imediata.
Se você ainda espera que alguém o complete, talvez esteja se guiando por uma bússola quebrada. A autora denuncia a promessa do amor como preenchimento — um retorno à ilusão fusional da infância — e convida o leitor a suportar a solidão como condição de possibilidade para o encontro.
Além disso, a autora toca num ponto nevrálgico: o amor como demanda narcísica. “Esperar que o outro venha restaurar a nossa autoestima é terceirizar o que só o sujeito pode elaborar”, pontua. O amor vira palco da repetição: busca-se no parceiro o que faltou na infância, o que não se nomeou no espelho, o que não se simbolizou na dor.
A idealização romântica cobra um preço alto. É o amor que não tolera o conflito, que exige plenitude e confunde presença com vigilância. “O amor que tudo suporta, na verdade, às vezes tudo silencia”, observa Ana, indicando que a cumplicidade pode esconder a dificuldade de sustentar o desejo próprio.
A ausência de limites, a sobreposição entre o eu e o outro e a negação da solidão conduzem à exaustão. Ana escreve: “O amor não resolve a solidão. Ele só a transforma em companhia.” E isso não é pouco — mas também não é tudo.
Em tempos de aplicativos, desencontros e egos frágeis, talvez o mais revolucionário seja admitir: o amor é falho, incompleto e, ainda assim, desejável. Como escreve a autora: “Amar não é se salvar da vida, é se lançar nela, com tudo o que falta, tudo o que sobra, tudo o que resta.”
Essa desilusão entre amor e completude talvez seja uma das maiores contribuições psicanalíticas para os afetos contemporâneos — e também o maior convite à responsabilidade subjetiva.
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🖋 Michel Francisco
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
Reprodução integral do texto original, incluindo marcas de formatação e eventuais avisos de edição do WhatsApp. Sem correção ou reescrita.
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