“Será que eu só existo no olhar do outro?”
🧐📄 *Textão de hoje*
*“Será que eu só existo no olhar do outro?”*
Todos os dias, quando alguém pronuncia nosso nome, quando alguém nos vê, nos deseja, nos critica ou até nos ignora — uma pequena fundação do nosso “eu” é construída… ou desmorona. Porque, como lembram Ana Suy e Christian Dunker, existir não é apenas estar no mundo como um objeto; é ocupar um lugar no desejo de alguém.
Mas o “eu”, esse que defendemos com unhas, dents, selfies e diplomas… talvez seja mais ficção do que verdade. Não mentira — ficção. Uma aposta compartilhada socialmente. Uma história que contamos para não sucumbir ao caos. Porque sem essa narrativa, sem esse recorte imaginário que nos separa do mundo, tudo vira uma bagunça total.
Dunker lembra que nos descobrimos como nós mesmos através do olhar do outro. Como se o espelho devolvesse não só nossa imagem, mas o significado dela.
E é nesse ponto que o amor entra como um terremoto simbólico: quando nos apaixonamos, descobrimos que poderíamos ser algo que nunca fomos. Que há versões nossas que estavam adormecidas, esperando alguém desejar que existíssemos.
Só que aí vem o paradoxo:
Queremos ser vistos, mas temos pavor de sermos descobertos.
Queremos conexão, mas exigimos controle absoluto sobre quem somos.
Queremos amar… desde que não doa.
Queremos o outro… mas Deus nos livre que ele chegue perto demais.
E o mais irônico?
A experiência analítica nos revela justamente o contrário do que acreditamos:
não somos senhores do que pensamos, fazemos ou desejamos.
Há um “eu” que age enquanto o outro dorme, sonha e tropeça nas próprias palavras.
Talvez por isso nos perguntem às vezes:
“Mas quem é você de verdade?”
Como se houvesse uma essência guardada num cofre dentro do peito — pronta, estável, definitiva.
Mas a psicanálise insiste:
O eu não está dentro, está entre.
Entre olhares. Entre perdas. Entre versões.
Entre o teatro que performamos e a solidão que evitamos.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
Reprodução integral do texto original, incluindo marcas de formatação e eventuais avisos de edição do WhatsApp. Sem correção ou reescrita.
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