Subjetividade contemporânea

“Quando a felicidade vira política de controle”

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 06:23

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🧐📄 *TEXTÃO DE HOJE* *“Quando a felicidade vira política de controle”* Vivemos numa época em que a “felicidade” deixou de ser uma experiência humana para virar uma obrigação moral. Não basta viver — é preciso ser positivo, resiliente, entusiasmado, produtivo, sempre pronto para se “tornar a melhor versão de si mesmo”. E se você não consegue… a culpa é sua. É aqui que a happycracia entra em cena. Edgar Cabanas e Eva Illouz mostram que a felicidade, tal como nos é vendida, deixou de ser um sentimento e passou a ser um dispositivo de poder. Não um poder que se impõe pela força, mas um que se infiltra no cotidiano e se torna “natural”, “óbvio”, “científico”. A felicidade virou uma métrica, um KPI emocional, um padrão de normalidade e um ideal político. Na história do filme À Procura da Felicidade, analisada pelos autores, fica evidente o recado contemporâneo: se você fracassa, é porque não tentou o suficiente; se conseguiu, é mérito exclusivo seu. A desigualdade desaparece, a política desaparece, a sociedade desaparece. Tudo vira decisão individual. E, claro, se a vida der errado… faltou “mindset”. A psicologia positiva entra nesse cenário como a nova religião secular: promessas simples, linguagem científica e um efeito colateral perigoso — a patologização do sofrimento. Se tristeza vira falha pessoal, então a sociedade não precisa se responsabilizar por nada. A precarização? Culpa da sua falta de otimismo. A exploração? Falta de resiliência. A solidão? Falta de gratidão. A happycracia cria um novo tipo de cidadão: autogerido, flexível, emocionalmente ajustado, sempre disposto a transformar obstáculos em oportunidades — uma subjetividade calibrada para o mercado, não para a vida. Uma subjetividade que aprende a se vigiar, a se julgar, a se punir. Uma subjetividade que confunde felicidade com desempenho. E, como todo dispositivo de poder, ela se vende como libertadora. É por isso que dói admitir: a indústria da felicidade é menos sobre tornar as pessoas felizes e mais sobre torná-las governáveis. No fim das contas, talvez a grande lição seja esta: não é você que está “errado” por sofrer — talvez seja o mundo que está errado por transformar sofrimento em desvio e felicidade em mercadoria. Talvez seja hora de devolvê-la ao que ela sempre foi: humana, instável, não mensurável, indomesticável. Hoje, o verdadeiro gesto político não é ser feliz. É não permitir que transformem seu afeto em planilha e seu sofrimento em defeito.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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