Freud semeia cisões no saber moderno
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*Freud semeia cisões no saber moderno*
Há muitos motivos para ainda falarmos de Freud. Apesar da distância temporal e das mudanças na cultura científica, Sigmund Freud continua a provocar – e dividir – os campos da ciência, da cultura e da subjetividade.
A historiadora Elisabeth Roudinesco sabe bem por quê. Em Sigmund Freud na sua época e em nosso tempo, ela desmonta o Freud mítico para apresentar um sujeito histórico, ambicioso e contraditório. Freud era um judeu vienense, iluminista e conservador, progressista e misógino, um homem que queria libertar o desejo — para, logo depois, codificá-lo.
O livro é dividido em quatro partes, seguindo a cronologia da vida de Freud e o impacto que causou em sua época e na posteridade. A primeira parte, por exemplo, mostra a origem familiar de Freud e a herança judaica que moldou suas escolhas. Mas não se trata de uma biografia sentimental: trata-se de um mapeamento político da formação do inconsciente moderno.
> “Freud se descreve como um rebelde metódico, desde a infância apaixonado pelos mistérios e extravagâncias da sexualidade humana.”
Essa frase resume a forma como Roudinesco apresenta o personagem: alguém que subverte para ordenar, que desorganiza para teorizar.
Se você ainda acredita que Freud era apenas o pai da psicanálise, é hora de rever. Ele também foi estrategista institucional, excomungador de discípulos e criador de um movimento que rapidamente se dogmatizou — e também se fragmentou. Os capítulos sobre os conflitos com Jung e Adler mostram como Freud não apenas fundou uma doutrina, mas produziu um modo de fidelidade: ora mística, ora paranoica.
Mas o ponto alto da obra talvez seja sua capacidade de articular a vida privada de Freud com os dilemas públicos da modernidade. Roudinesco descreve Freud como alguém que “preferia o desejo não saciado ao gozo dos corpos”, sempre em guerra contra o próprio tempo. Ela nos lembra que Freud não apenas teorizou o mal-estar, mas também o encarnou. Ele foi, ao mesmo tempo, crítico e produto do patriarcado, do colonialismo europeu, do cientificismo e da cultura letrada ocidental.
> “Cada passo da vida de Freud foi comentado dezenas de vezes, e cada linha de sua obra interpretada de múltiplas maneiras.”
O comentário da autora evidencia o estatuto simbólico de Freud como um campo de batalha hermenêutico, em que o “Freud clínico”, o “Freud judeu”, o “Freud político” e até o “Freud maçônico” disputam lugar na memória.
É justamente por isso que o livro de Roudinesco permanece atual: porque desconstrói sem destruir, reconhece o legado sem canonizar. Em tempos de redes sociais e simplificações perigosas, onde Freud é ora endeusado, ora descartado como ultrapassado, este livro oferece um antídoto: o rigor histórico aliado à escuta analítica.
Se os mercados do saber hoje parecem dominados por gurus instantâneos e diagnósticos apressados, vale a pena retornar a esse Freud mais incômodo, menos domesticável. Como lembra a própria autora, “Freud fundou uma doutrina que se acreditava eterna, mas que carregava, desde o início, os germes de sua multiplicação em escolas rivais”.
O resultado? Uma psicanálise em permanente estado de tensão — exatamente como o sujeito que ela tenta compreender.
Michel Francisco
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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