Infância, trauma e constituição do sujeito

Quando a privação semeia confusão no desenvolvimento emocional

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:43

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🧐📄 *Textão de hoje* *Quando a privação semeia confusão no desenvolvimento emocional* Há muitas razões para nos preocuparmos com os efeitos psíquicos da privação emocional em crianças. Tal como as incertezas do mercado confundem investidores, a ausência precoce de cuidado materno consistente desorganiza o psiquismo infantil — e, com frequência, seus efeitos se manifestam na adolescência em forma de comportamento antissocial. Winnicott, pediatra e psicanalista britânico, foi direto: “a privação emocional pode destruir o desenvolvimento emocional de uma criança que, de outro modo, teria um bom potencial” (p. 115). Para ele, não é a ausência de disciplina que leva à delinquência, mas sim a falha ambiental primária no fornecimento de cuidado. Se ainda há quem pense a delinquência como um problema de caráter, convém repensar: em sua vasta experiência com adolescentes institucionalizados, Winnicott sustentou que “a tendência antissocial é um apelo à restituição de algo perdido” (p. 122). Ou seja, o ato infracional é, paradoxalmente, uma demanda por pertencimento e integração emocional. Tal como analistas de risco que leem sinais contraditórios da economia, o psicanalista vê no comportamento desafiador não apenas uma ameaça, mas uma mensagem. A criança delinquente não quer destruir, mas provocar o ambiente a reagir — e, quem sabe, finalmente oferecer o cuidado que faltou. Não se trata de romantizar o crime, mas de compreender o cenário que o gera. “A tendência antissocial”, escreve Winnicott, “pode ser o início do tratamento, e não sua interrupção” (p. 119). O gesto transgressor revela que ainda há esperança: o sujeito acredita que o ambiente possa responder. Essa desconexão entre o cuidado que deveria ter havido e a experiência real de negligência atua como uma fratura invisível no desenvolvimento. Tal como os mercados que reagem ao vazio de liderança, o sujeito reage ao vazio ambiental com atos que convocam o outro, mesmo que sob a forma de infração. Em suma, o que Winnicott nos lembra — sem ambiguidade — é que não existe delinquência sem história. Existe uma criança que, em algum momento, foi deixada sozinha demais, cedo demais. E talvez, por trás de cada transgressão, haja uma tentativa inconsciente de restaurar a continuidade do ser.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Donald Winnicott