Cultura, literatura e sociedade

A Psicanálise no Brasil Sempre Foi Política

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:43

3 min de leitura
🧐📄 *Textão de hoje* A Psicanálise no Brasil Sempre Foi Política Há uma história da psicanálise no Brasil que não cabe nos manuais técnicos, nem nos seminários fechados, e muito menos nas versões romantizadas de “neutralidade” analítica. Como lembra Leandro dos Santos em sua pesquisa, a psicanálise brasileira nasceu cercada de disputas de poder, alianças elitistas e silenciamentos — e é justamente nesse terreno que Lacan chega como ruptura, deslocamento e convite ético para recolocar a clínica em relação com o mundo. O texto mostra como a formação clássica, importada do modelo europeu e rigidamente controlada pelas sociedades filiadas à IPA, acabou reproduzindo a desigualdade brasileira: análise cara, rígida, medicalizada e distante da vida comum. O kleinismo dominante reforçava uma leitura psicologizante do sofrimento, como se o sujeito fosse apenas efeito de sua biologia interna — ignorando racismo, pobreza, violência estatal, ditadura e precariedades que atravessam o país. Ao invés de democratizar o acesso, a psicanálise tornou-se, muitas vezes, um dispositivo de distinção social. A virada lacaniana aparece como alternativa, não idealizada, mas realista: um ensino que retira a psicanálise da mão dos médicos, questiona os monopólios, desmonta o fetiche da “análise didática” e insere o inconsciente no campo da linguagem, do laço, da cultura. Mas essa virada também gerou sua própria forma de segregação — agora intelectual. O rebuscamento teórico, a linguagem hermética e as traduções incompletas tornaram Lacan inacessível para quem tem menor capital cultural. Ou seja: mudam as portas, mas nem sempre muda o acesso. O ponto forte do texto é mostrar que não existe psicanálise sem política. Dizer-se apolítico já é tomar posição. O analista está implicado — por sua história, por sua classe, por seu desejo. Sociedades analíticas que se calaram na ditadura revelam isso. A clínica que atende apenas iguais também revela isso. A recusa em olhar para as violências brasileiras revela isso. A formação que mantém hierarquias rígidas revela isso. Leandro propõe uma ética simples e radical: a psicanálise precisa se abrir, precisa democratizar-se, sair do consultório espelhado e escutar os sintomas sociais que atravessam o sofrimento. Não se trata de “psicanálise de pobre”, mas de psicanálise para sujeitos, quaisquer que sejam. Uma clínica que não reproduza a lógica “de rico para rico, de médico para médico”, mas que assuma sua responsabilidade no laço social. O texto convoca psicanalistas — lacanianos, kleinianos, winnicottianos, freudianos — a reconhecer o risco constante de cair no gozo do prestígio, da mestria, do poder institucional. Toda teoria pode virar instrumento de segregação. Todo analista pode se perder no narcisismo do lugar que ocupa. Mas há também um convite: unir-se pela causa comum da psicanálise, em suas múltiplas formas de expressão, fora da bolha, dentro da vida real. Afinal, se o inconsciente é efeito do discurso, então não existe clínica possível que esteja fora da história do seu tempo.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Jacques Lacan