Infância, trauma e constituição do sujeito

Winnicott, Heidegger e o nascimento do ser

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 09:25

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🧐📄 *Textão do dia* *Winnicott, Heidegger e o nascimento do ser* Há momentos na história do pensamento em que diferentes campos do saber se encontram e, desse encontro, surge uma mudança profunda de perspectiva. O diálogo entre Donald Winnicott e Martin Heidegger, apresentado no artigo Winnicott e Heidegger: temporalidade e esquizofrenia, de Elsa Oliveira Dias, aponta exatamente para esse tipo de deslocamento. Trata-se de uma tentativa de aproximar a psicanálise do desenvolvimento emocional primitivo da analítica existencial, mostrando que a constituição do sujeito humano não pode ser compreendida apenas como um fenômeno psicológico ou biológico, mas como uma experiência fundamentalmente ontológica: o modo como o ser humano passa a existir no mundo. Heidegger, ao investigar a estrutura do Dasein — o ser humano enquanto “ser-no-mundo” — enfatizou sobretudo a dimensão da temporalidade, especialmente a relação do homem com a morte. Em Ser e Tempo, o filósofo mostrou que o ser humano vive projetado para o futuro, sendo constituído pela consciência de sua finitude. Contudo, como observa o artigo, há um ponto pouco explorado em sua obra: o começo da existência. Heidegger fala do homem como “lançado no mundo”, mas não se detém na questão de como esse lançamento acontece, nem nas dificuldades de chegar ao mundo e habitá-lo. É exatamente nesse ponto que a contribuição de Winnicott se torna decisiva. Para Winnicott, o início da vida não é simplesmente o nascimento biológico. O bebê não chega ao mundo já pronto para existir como sujeito. Há uma longa jornada entre nascer e habitar o mundo. Nos primeiros momentos da vida, o bebê encontra-se em um estado de extrema imaturidade e dependência absoluta. Ele não possui ainda um eu integrado, não distingue entre interno e externo, nem possui uma experiência clara de realidade. O que existe é apenas uma continuidade de ser, sustentada pelos cuidados do ambiente, sobretudo pela presença da mãe. Essa ideia modifica profundamente o modo de compreender a existência humana. O ser humano, segundo Winnicott, não nasce pronto para ser-no-mundo. Ele precisa tornar-se capaz disso. Esse processo depende de um ambiente suficientemente bom que ofereça sustentação, previsibilidade e cuidado. A mãe, nesse contexto, não aparece inicialmente como um objeto externo para o bebê; ela é parte do próprio mundo do bebê. O que chamamos de realidade externa surge gradualmente a partir dessa relação primordial. Nesse estágio inicial, o bebê vive dentro de uma experiência que Winnicott descreve como ilusão de onipotência. O mundo lhe é apresentado de maneira tão delicada e gradual que parece surgir a partir de seus próprios gestos. A mãe oferece o mundo em “pequenas doses”, permitindo que o bebê mantenha a continuidade de seu ser. Quando esse processo ocorre de forma suficientemente boa, o bebê começa lentamente a integrar sua experiência, desenvolvendo um senso de identidade e adquirindo a capacidade de viver no mundo com familiaridade. Contudo, quando o ambiente falha gravemente nesse momento inicial, surgem consequências profundas. Para Winnicott, os distúrbios psicóticos — especialmente aqueles de natureza esquizofrênica — podem ter origem exatamente nessas falhas ambientais precoces. Se o bebê é exposto a intrusões imprevisíveis ou a um ambiente caótico, ele é forçado a reagir antes de possuir estrutura psíquica para isso. Essa reação interrompe a continuidade de ser. Como diz Winnicott, “a alternativa a ser é reagir, e reagir interrompe o ser e o aniquila.” Essas interrupções da experiência de existir produzem aquilo que Winnicott chamou de agonias impensáveis — experiências traumáticas que não podem ser simbolizadas porque ainda não existe um eu suficientemente constituído para vivenciá-las. O indivíduo cresce biologicamente, mas seu amadurecimento emocional fica congelado. Em vez de viver plenamente, ele passa a organizar sua existência como um sistema defensivo contra a ameaça de colapso. É nesse ponto que o diálogo com Heidegger se torna particularmente interessante. Heidegger descreve a doença como uma privação da saúde, uma perda de familiaridade com o mundo. Winnicott, porém, propõe uma reformulação importante: a saúde não pode ser considerada um estado natural que simplesmente se perde. A saúde é uma conquista. Ela depende do sucesso do processo de amadurecimento que ocorre nos primeiros momentos da vida. Essa perspectiva muda radicalmente a forma de compreender a psicopatologia. A esquizofrenia, por exemplo, não seria apenas uma perda de contato com a realidade, mas o resultado de uma falha na constituição inicial da relação com o mundo. O indivíduo não perdeu algo que possuía; ele pode simplesmente nunca ter conseguido construir plenamente essa familiaridade com a realidade. A análise do caso do “homem do relógio”, discutido nos Seminários de Zollikon, ilustra bem essa diferença de perspectiva. Para Heidegger, o problema do paciente seria uma distorção na relação com as coisas do mundo. Para Winnicott, entretanto, essa dificuldade pode ser compreendida como resultado de uma história mais primitiva: a ausência de um ambiente suficientemente confiável que permitisse ao sujeito desenvolver uma relação segura com a realidade. A grande contribuição de Winnicott, portanto, é mostrar que o ser humano só pode chegar ao mundo acompanhado. Se a morte é a experiência radicalmente solitária da existência, o nascimento psíquico é o contrário: ele exige a presença de outros seres humanos que sustentem o início da vida. O bebê precisa ser sustentado, protegido e gradualmente introduzido na realidade para que possa desenvolver um sentimento de existência. Nesse sentido, Winnicott completa aquilo que Heidegger deixou apenas esboçado. Se o filósofo mostrou que o homem é um ser-no-mundo, o psicanalista revelou como esse ser-no-mundo se torna possível. O mundo não é simplesmente dado ao sujeito; ele é construído no interior de uma relação primordial de cuidado. Talvez seja essa a grande lição clínica dessa aproximação entre filosofia e psicanálise: existir não é algo garantido desde o início. Tornar-se capaz de viver no mundo, sentir-se real e experimentar a continuidade do próprio ser é um processo delicado, dependente do encontro humano que ocorre no início da vida. E é por isso que, muitas vezes, aquilo que aparece na clínica como loucura não é exatamente uma ruptura com a vida, mas algo ainda mais profundo: uma luta para finalmente conseguir alcançá-la.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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