Vários caminhos não trilhados: A dor silenciosa da dispersão contemporânea
*Textão de hoje*
*Vários caminhos não trilhados: A dor silenciosa da dispersão contemporânea*
Vivemos numa época estranha para o desejo. Nunca tivemos tantas possibilidades, tantos caminhos, tantos estímulos e, paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão difícil sustentar uma direção. Em Mentes Dispersas, Gabor Maté descreve isso de forma profundamente humana no capítulo “Vários caminhos não trilhados”: sujeitos inteligentes, sensíveis e criativos, mas atravessados por uma sensação constante de interrupção interna. Não se trata apenas de distração. Trata-se da dificuldade de permanecer.
Há pessoas que vivem como se estivessem sempre na antessala da própria vida. Começam projetos com entusiasmo, mergulham em ideias, fazem planos, imaginam futuros grandiosos… mas algo acontece no meio do caminho. O interesse se dispersa, a energia desaparece, o foco se fragmenta. E sobra aquela sensação silenciosa de possuir talentos que nunca conseguiram se transformar plenamente em existência.
Talvez uma das dores mais contemporâneas seja justamente essa: não o fracasso em si, mas o acúmulo de possibilidades não vividas. Os livros não terminados, os cursos abandonados, os textos nunca escritos, os vínculos interrompidos, os sonhos adiados. Como escreve Maté, muitos sujeitos vivem cercados de “vários caminhos não trilhados”.
Nossa cultura contribui profundamente para isso. Vivemos hiperestimulados. Saltamos de tela em tela, de tarefa em tarefa, de pensamento em pensamento. Somos incentivados à velocidade, mas desaprendemos a continuidade. O excesso de estímulos fragmenta a atenção e enfraquece a capacidade de sustentar presença. O sujeito contemporâneo vive cansado antes mesmo de começar.
E permanecer talvez seja uma das formas mais profundas de amor.
Permanecer numa conversa sem fugir para o celular. Permanecer diante de um livro quando ele exige lentidão. Permanecer num vínculo para além da excitação inicial. Permanecer diante de si mesmo sem imediatamente buscar ruído, distração ou produtividade.
Gabor Maté percebe algo fundamental: muitas vezes, aquilo que chamamos de “falta de foco” também possui uma história emocional. A mente dispersa frequentemente é uma mente em alerta, cansada, sobrecarregada, tentando sobreviver ao excesso. Não raro, a dispersão é uma forma de defesa psíquica.
Talvez por isso tantas pessoas sintam culpa ao descansar. Quando param, encontram um vazio inquietante. Como se precisassem estar permanentemente produzindo, respondendo, consumindo ou preenchendo alguma ausência difícil de nomear. A hiperatividade contemporânea não está apenas nos corpos. Está nas almas.
O mais triste não é alguém fracassar. É alguém acreditar que sua dificuldade de sustentar um caminho significa ausência de valor. Há sujeitos que passaram a vida inteira ouvindo que eram “preguiçosos”, “desorganizados” ou “inconstantes”, quando, na verdade, carregavam apenas uma mente exausta tentando sobreviver ao excesso.
Talvez amadurecer hoje seja aprender a escolher menos e habitar mais profundamente aquilo que se escolheu. Porque uma vida inteira pode se perder não apenas por falta de oportunidades, mas pela impossibilidade de permanecer tempo suficiente diante delas.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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