Infância, trauma e constituição do sujeito

TDAH, infância e o silêncio que virou sintoma

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 15:09

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🧐📄 *Textão do Dia* *TDAH, infância e o silêncio que virou sintoma* Vivemos em uma época que exige velocidade, produtividade, atenção constante e adaptação imediata. Nesse cenário, a infância também foi capturada pela lógica do desempenho. A criança inquieta, dispersa, angustiada ou excessivamente agitada passa rapidamente a ocupar o lugar de um “transtorno” que precisa ser corrigido. Porém, talvez a grande pergunta não seja apenas “o que essa criança tem?”, mas principalmente: “o que ela está tentando comunicar através do sintoma?”. A tese de Rosana Vera de Oliveira Schicotti propõe justamente esse deslocamento ético e clínico: sair da lógica puramente medicalizante para escutar a singularidade da criança. O trabalho mostra como muitos diagnósticos de TDAH aparecem em contextos marcados por vínculos frágeis, dificuldades familiares, excesso de exigências escolares e empobrecimento das experiências simbólicas. Em vez de apenas compreender a hiperatividade como um “déficit cerebral”, a autora nos convida a pensar o sintoma como uma forma de sofrimento que tenta encontrar linguagem. A psicanálise nos lembra que a criança não nasce pronta: ela se constitui na relação com o outro, na capacidade de brincar, simbolizar, tolerar frustrações e transformar angústias em pensamento. Quando isso falha, o corpo frequentemente passa a falar através da agitação, da impulsividade ou da dificuldade de concentração. Nem toda inquietude é doença. Às vezes, é um pedido de escuta. Às vezes, é o excesso de um mundo que acelerou mais rápido do que a subjetividade humana consegue acompanhar. Talvez o maior desafio contemporâneo seja justamente este: não transformar automaticamente toda dor em diagnóstico e toda diferença em patologia. Porque, em muitos casos, antes de medicar a criança, precisamos perguntar o que aconteceu com os adultos, com os vínculos, com a escola e com o próprio tempo da infância.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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