Sobre ser chato
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*Sobre ser chato*
Existe algo profundamente inquietante na experiência de estar diante de alguém “chato”. Não se trata apenas de tédio superficial, mas de uma sensação corporal, quase física, de esvaziamento da relação. No capítulo Sobre ser chato, Stephen Grosz nos mostra que o tédio, na clínica, nunca é banal — ele é um sinal. Um sintoma. Um modo de comunicação.
O caso de Graham nos revela que ser “chato” não é simplesmente uma falha social, mas uma defesa psíquica. Ele fala, responde, argumenta — mas não se envolve. Há palavras, mas falta encontro. O outro não se sente afetado, tocado. E talvez seja exatamente isso: uma tentativa inconsciente de evitar o contato real. O tédio, então, deixa de ser um defeito e passa a ser uma estratégia — uma forma de manter distância, de não se expor, de não se implicar.
Na escuta psicanalítica, o tédio do analista não é descartado; ele é investigado. Grosz sugere que o enfado pode indicar que algo está sendo evitado — um afeto, um conflito, uma verdade incômoda. Pode ser também uma forma de “morte psíquica temporária”: o sujeito se apaga para não sentir, para não correr riscos emocionais. Em outras palavras, às vezes ser chato é uma maneira de sobreviver.
Na clínica, isso nos ensina algo essencial: aquilo que nos afasta do outro pode ser exatamente o que mais precisa ser escutado. O paciente que não cativa pode estar pedindo, silenciosamente, para ser encontrado. E talvez o verdadeiro trabalho analítico comece justamente aí — no ponto em que nada parece acontecer. Porque, muitas vezes, é no vazio que o sujeito mais fala.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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