Clínica e técnica psicanalítica

Sobre o Riso: Entre a Superfície e a Falha Básica

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 05:51

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🧐📄 *Textão do Dia* *Sobre o Riso: Entre a Superfície e a Falha Básica* Rir parece, à primeira vista, um dos gestos mais simples da experiência humana. Um alívio, uma descarga, um momento de leveza. Mas, à luz da obra *A Falha Básica* de Michael Balint, o riso pode ser algo muito mais complexo: ele pode funcionar como um marcador das diferentes camadas da mente, revelando se estamos no nível mais “adulto” da linguagem compartilhada ou mergulhando nas zonas mais primitivas da experiência psíquica. No nível edípico — aquele em que paciente e analista compartilham uma linguagem comum — o riso pode aparecer como elaboração, como reconhecimento simbólico, como algo que faz sentido para ambos. É o riso que acompanha a interpretação, que sinaliza compreensão, que organiza a experiência. Aqui, rir é quase um ato de pensamento: uma forma de metabolizar o que antes era tensão. Mas Balint nos alerta que nem todo riso pertence a esse nível. Há momentos em que o riso escapa ao sentido, torna-se estranho, deslocado, até inquietante — e é aí que entramos no campo da falha básica. No nível da falha básica, onde a experiência é mais primitiva, bipessoal e anterior à linguagem estruturada, o riso pode perder sua função simbólica. Ele deixa de ser comunicação e passa a ser reação. Pode ser uma defesa contra o vazio, uma tentativa de tamponar a falta de adaptação entre sujeito e objeto, ou mesmo um sinal de desorganização. Nesse nível, como Balint descreve, as palavras — e poderíamos incluir o riso como uma “quase-palavra” — deixam de ter um significado compartilhado. O que para um é leveza, para outro pode ser vivido como invasão, desconsideração ou até violência. Assim, o riso nos ensina algo fundamental para a clínica: nem todo riso é alegria, nem toda leveza é elaboração. Às vezes, rir é não conseguir sentir; outras vezes, é uma tentativa desesperada de manter algum vínculo quando a linguagem falha. Escutar o riso, portanto, é escutar em que nível o sujeito está falando — se ele ainda pode simbolizar ou se já está à beira da falha. E talvez o trabalho do analista não seja interpretar o riso imediatamente, mas sustentar o espaço onde, quem sabe, um dia ele possa voltar a ter sentido.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Michael Balint