Teoria e conceitos

A Consciência da Consciência

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 06:47

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🧐📄 *Textão do Dia* *A Consciência da Consciência* Há algo profundamente inquietante quando começamos a pensar sobre a própria consciência. Não a consciência como simples lucidez ou presença, mas a consciência que se volta sobre si mesma, que se observa, que se interroga. É exatamente esse movimento que Edgar Morin nos convida a fazer: perceber que a consciência não é algo estável, contínuo ou plenamente dominado por nós. Ela surge, desaparece, oscila. Há momentos em que estamos presentes, atentos, reflexivos — e outros em que simplesmente vivemos, agimos, falamos, sem essa vigilância interna. A consciência, portanto, não é um estado permanente, mas um acontecimento. Morin mostra que essa capacidade de a consciência se tornar objeto de si mesma — de pensar o próprio pensamento — é ao mesmo tempo uma potência e um limite. Potência porque nos permite refletir, questionar, nos distanciar de nossas próprias ideias e ações. Mas também limite, porque essa reflexividade não é absoluta: não conseguimos estar conscientes o tempo todo daquilo que somos, sentimos ou pensamos. Há sempre zonas de sombra, interrupções, esquecimentos. A consciência não ilumina tudo — ela é, antes, uma luz intermitente. Essa instabilidade revela algo fundamental: não somos totalmente transparentes para nós mesmos. Aquilo que pensamos conhecer sobre nós pode, a qualquer momento, escapar, se transformar ou simplesmente desaparecer. A consciência não domina o sujeito; ela o acompanha de forma parcial, fragmentada, muitas vezes tardia. Pensamos depois de agir, compreendemos depois de sentir, damos sentido depois do acontecimento. Há sempre um descompasso entre viver e saber que se vive. No fundo, o que Morin nos propõe é uma ética da lucidez: reconhecer que nossa consciência é limitada, falha, incompleta. E justamente por isso, cultivar a atenção sobre si não como domínio, mas como exercício. Não se trata de controlar tudo, mas de aceitar que pensar sobre si é um processo sempre inacabado. A consciência da consciência não nos dá poder absoluto — ela nos dá, antes, a humildade de saber que nunca somos totalmente aquilo que pensamos ser.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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