Infância, trauma e constituição do sujeito

O Efeito da Ausência do Pai nas Filhas

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:48

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🧐📄Textão do Dia *O Efeito da Ausência do Pai nas Filhas* A ausência do pai não é apenas um vazio físico — é uma ferida simbólica que reverbera na alma, no corpo e na mente da filha. Susan E. Schwartz, em O Efeito da Ausência do Pai nas Filhas, mostra que o “pai ausente” deixa uma marca invisível que molda o modo como a mulher se percebe, se relaciona e ama. A ausência é, paradoxalmente, uma presença constante, um espaço que exige ser preenchido, um apelo inconsciente ao reconhecimento e ao amor negado. Quando o pai não sonha com a filha — quando não a vê, não a nomeia, não a reconhece — algo dentro dela se rompe. Essa ausência, diz Schwartz, é o que “rompe os fios da personalidade”, impedindo a filha de se enxergar em um espelho simbólico que a confirme. Nasce então uma busca incessante: provar valor, ser perfeita, merecer atenção. O pai ausente não é apenas aquele que partiu — é também o que está presente, mas emocionalmente inacessível. A filha aprende a se calar, a esconder a dor sob camadas de competência, sucesso e autocontrole. O que não é dito, no entanto, ecoa como um grito subterrâneo: “Pai, veja-me.” Schwartz recorre à psicologia junguiana para mostrar que o pai representa o princípio da alteridade — aquele que ajuda a filha a sair do laço simbiótico materno e a se lançar no mundo. Sua ausência, portanto, impede a construção de uma identidade própria. O desejo de pai se transforma em ferida de pai: a mulher busca, nas relações amorosas, no trabalho e até na espiritualidade, o eco do amor que lhe foi negado. Ela ama homens distantes, repete vínculos frios e sente culpa por desejar o impossível. O inconsciente clama por reconciliação — não com o pai real, mas com a imagem interior que precisa ser reelaborada para que o feminino possa florescer. Curar a ferida paterna é, para Schwartz, uma travessia analítica e simbólica: trazer à luz o que ficou na sombra. Quando a filha reconhece sua dor, ela começa a separar o pai real do pai internalizado, a história vivida da história imaginada. Essa elaboração permite que a ausência deixe de ser condenação e se torne matéria de transformação. Na clínica, esse processo é vivido como uma espécie de alquimia: do vazio emerge a voz, da dor nasce o sentido, da perda nasce o si-mesmo. É nesse reencontro que a filha pode, enfim, dizer: “Não sou a ausência dele; sou o que nasce a partir dela.” > “A presença da ausência é o mais nocivo.” — Susan E. Schwartz A ausência paterna é uma ferida intergeracional — mas também um convite à individuação. Toda filha que se reconhece órfã, mesmo com o pai vivo, carrega em si a possibilidade de transformar a falta em força. Porque o amor que não veio do pai pode, enfim, nascer de dentro.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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