Infância, trauma e constituição do sujeito

O Adolescer na Contemporaneidade

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:26

3 min de leitura
*🧐📄Textão do Dia* *O Adolescer na Contemporaneidade* O livro O Adolescer na Contemporaneidade, de Roosevelt Cassorla e Roberta Goelzer, nos convida a compreender o adolescente como um ser em luto, em travessia e em busca de sentido num mundo marcado pela instabilidade. Mais do que uma fase, a adolescência é um processo de dessimbiotização — o rompimento com as figuras parentais e com os ideais infantis —, onde o sujeito tenta construir uma identidade própria em meio a ideais frágeis e valores líquidos. “O adolescente tem uma facilidade muito grande de sair de um idealismo para um fanatismo.” Essa frase de Cassorla sintetiza o perigo e a potência da juventude. Entre o desejo de liberdade e o terror de crescer, o adolescente lida com lutos simbólicos: pelo corpo infantil, pelos pais idealizados e pela segurança que se desfaz. A crise adolescente não é patologia — é o próprio movimento vital de reinvenção do sujeito. A psicanálise mostra que nenhum ser humano existe fora da sociedade, e o adolescente expressa como poucos as tensões de seu tempo. Em um cenário de hiperconexão e imediatismo, a construção da subjetividade exige tempo — mas a cultura atual exige pressa. As redes sociais oferecem pertencimento e simultaneamente intensificam o desamparo: a validação depende do olhar do outro, o ego se torna cada vez mais corporal e imagético. Cassorla e Goelzer observam que quando o luto simbólico não se completa, surgem descargas em ato, mutilações e toxicomanias — tentativas desesperadas de simbolizar o vazio. > “Antes de tudo, o ego é um ego corporal.” A frase freudiana ecoa na clínica com adolescentes: o corpo fala onde as palavras ainda não se formaram. Os autores também destacam a cultura do narcisismo — uma sociedade que valoriza o espetáculo e a imagem em detrimento da solidariedade e dos vínculos reais. Nesse contexto, o analista precisa ajudar o adolescente a sonhar novamente, a resgatar o sentido interno que se perde no barulho do mundo. > “O processo analítico é um sonho a dois.” O analista torna-se, assim, o espaço possível de reinvenção simbólica. Adolescer é uma travessia entre a dependência e a autonomia, entre o ideal e o real. É um tempo de crise, mas também de criação — onde a imaturidade, como dizia Winnicott, é uma parte saudável do processo. O desafio da contemporaneidade é permitir que o adolescente sinta desprazer, luto e espera, sem anestesiar-se na rapidez do consumo ou nas ilusões digitais. Cassorla e Goelzer nos lembram que o papel do analista é ser testemunha e continente: um lugar onde o jovem possa simbolizar, errar, recomeçar — e, sobretudo, encontrar-se consigo mesmo fora do discurso dos outros. > “Na adolescência, é preciso se afastar do discurso de fora para encontrar quem se é dentro.”

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Donald Winnicott