Clínica e técnica psicanalítica

Calligaris revela a lógica da errância na psicose

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 12:52

2 min de leitura
🧐📄 *Textão do dia* *Calligaris revela a lógica da errância na psicose* Entre o mapa e o infinito, o psicanalista mostra que o sujeito psicótico não é um “sem sentido”, mas alguém que vive um saber sem centro. Há mais de três décadas, Contardo Calligaris propôs uma leitura que mudaria o modo de pensar a psicose na clínica: compreender o psicótico fora da crise. Em Introdução a uma Clínica Diferencial das Psicoses, o autor convida a ver o sujeito psicótico não como alguém que “perde o contato com a realidade”, mas como alguém que cria sentido demais — um viajante do simbólico que percorre o mundo sem um norte fixo. Para Calligaris, a psicose não se define apenas por delírios e alucinações. Ela pode existir em silêncio, sustentada por uma estrutura de errância, em que o sujeito circula entre significações equivalentes, sem hierarquia. Enquanto o neurótico mede sua vida por um “ponto de capiton” (a referência paterna que organiza o sentido), o psicótico habita um universo sem centro, em que todas as estradas são possíveis — e nenhuma leva a Roma. porque não existe um lugar a partir do qual medir a significação do que se faz.” Essa leitura transforma o olhar clínico: o psicótico deixa de ser visto como aquele que “perdeu o pai” e passa a ser aquele que precisa inventar um laço simbólico com o que lhe foi negado. Se o neurótico pode descansar na dívida com o pai, o psicótico precisa sustentar sozinho o peso do saber — e é justamente aí que nasce sua angústia estrutural: a de viver num saber infinito e impossível de concluir. A tarefa do analista, nesse cenário, muda radicalmente. Ele já não é o “sujeito suposto saber”, como na neurose, mas uma rede lateral do percurso — uma estação na viagem do paciente. A transferência, nesse caso, não se constrói pelo desejo de saber, mas pela circulação do saber, acompanhando o sujeito em seu trajeto. Calligaris alerta: o psicótico fora de crise é socialmente viável, mas vive em permanente trabalho simbólico — sustentar o mundo com sua própria certeza. Sua fala, aparentemente desconexa, pode ser o esforço de tecer uma rede de significações que o mantenha longe do Real. Ao escutar essa errância, o analista não interpreta o delírio, mas faz borda ao infinito do saber psicótico. A clínica se torna, assim, um espaço de sustentação e não de correção — um território onde o sujeito pode continuar inventando o sentido que o protege do colapso.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Contardo Calligaris