Clínica e técnica psicanalítica

Trabalho psíquico: o principal motor para vencer o desamparo

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 10:02

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🧐📄 *Textão do dia* *Trabalho psíquico: o principal motor para vencer o desamparo* No dia 17 de outubro, enquanto o mundo celebrava o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, Mario Eduardo Costa Pereira nos lembrava — em Pânico e Desamparo — que existe uma forma de miséria que não se mede em cifras: a pobreza simbólica. Essa carência não se expressa na falta de bens, mas na falta de palavra, de laço, de amparo. O autor propõe que o verdadeiro combate à miséria começa quando o sujeito é recolocado no circuito da linguagem, quando pode falar e ser escutado. Assim como o trabalho devolve dignidade material, a palavra devolve dignidade psíquica. O pânico, nessa perspectiva, é o sintoma de uma sociedade em que o laço simbólico se rompe. Ele surge quando o sujeito, privado de referências, se vê diante do vazio deixado pelo Outro. É o momento em que o corpo fala o que a linguagem não dá conta de dizer. Pereira escreve que “ser tomado de pânico é reconhecer, no corpo, o desamparo fundamental sobre o qual se ergue o funcionamento psíquico”. O corpo entra em colapso não por falha química, mas porque foi chamado a sustentar o peso do indizível. A psicanálise, nesse contexto, aparece como o campo do trabalho da palavra. O analista não cura com respostas, mas com escuta. Ele abre espaço para que o pânico — que parece apenas destrutivo — se torne um modo de elaborar o desamparo. O que o discurso médico reduz a uma crise é, para o analista, um grito em busca de linguagem. Pereira nos adverte que “a psicopatologia esquecida dos afetos é uma sistematização perigosa, racionalizante, que deixa escapar a essência viva da experiência afetiva”. Falar do pânico é, portanto, resgatar o que há de humano no sofrimento. Se o trabalho é o motor que vence a pobreza social, o trabalho simbólico é o que vence o desamparo psíquico. Ambos exigem tempo, presença e vínculo. O pânico, quando escutado, se transforma em palavra, e a palavra, quando acolhida, transforma o sujeito. Mario Pereira nos convida a compreender que a verdadeira tarefa do analista é sustentar o espaço do indizível, sem apressar o sentido nem silenciar o corpo. Em tempos de diagnósticos rápidos e escutas apressadas, o autor nos lembra que a cura não está em eliminar o pânico, mas em permitir que ele fale. Assim como o trabalho social resgata corpos, o trabalho analítico resgata sentidos. Ambos se complementam como formas de reconstruir o humano: um no plano da sobrevivência, outro no plano do ser. Porque vencer a pobreza é também — e talvez sobretudo — vencer o silêncio.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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