Amor, vínculos, desejo e luto

“No Jogo do Desejo”, Françoise Dolto

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 06:17

3 min de leitura
🧐📄 *Textao do dia* “No Jogo do Desejo”, Françoise Dolto Em No Jogo do Desejo, Françoise Dolto nos conduz ao coração da constituição do sujeito: é no campo da linguagem e do desejo que o humano se forma. A autora, a partir de sua vasta experiência clínica com crianças, mostra que o sujeito nasce na relação com o outro, na troca simbólica que dá sentido ao corpo, à palavra e à falta. A ideia central da obra é que o desejo é a estrutura mesma do sujeito. Dolto demonstra que o ser humano não é movido apenas por necessidades biológicas, mas por uma busca simbólica de reconhecimento. Desde o bebê que ri ao ver o “chapéu desaparecer e reaparecer”, o que está em jogo é a experiência da ausência — o momento em que o desejo surge como força criadora e a linguagem começa a ser o espaço de ligação entre o eu e o outro. Para Dolto, toda criança é um ser de linguagem, mesmo antes de falar. Cada gesto, olhar ou som é uma forma de inscrição no campo simbólico, uma tentativa de ser reconhecida como sujeito desejante. O corpo, nesse processo, é a primeira linguagem: ele fala, expressa, se defende, goza e sofre. É no corpo que se imprimem as marcas do desejo e da interdição, os traços que, mais tarde, formarão a imagem de si e a relação com o mundo. Ao longo dos ensaios, Dolto revela como o brincar, o ciúme entre irmãos, o amor materno e o Édipo são expressões do mesmo movimento simbólico — o esforço do sujeito em encontrar seu lugar no desejo do outro. Ela mostra que o inconsciente é relacional: não é um depósito de conteúdos reprimidos, mas um campo de trocas, de linguagem, de afetos e de gestos onde o sujeito se constrói e se transforma. Ler No Jogo do Desejo é reencontrar a psicanálise como arte da escuta e da simbolização. Dolto devolve à clínica sua dimensão poética e ética, lembrando que o sintoma é uma linguagem e que cada sofrimento traz uma tentativa de dizer o indizível. O analista, nesse jogo, não é quem corrige, mas quem participa: aquele que ajuda o sujeito a reconhecer o seu próprio desejo e a rir das contradições que o constituem. > “A linguagem é o lugar onde o ser humano nasce como sujeito do desejo.” — Françoise Dolto Dolto nos ensina que desejar é jogar: é aceitar a ausência, a falta e o risco do encontro. É nessa alternância entre o “sumiu” e o “achou” — entre o aparecer e o desaparecer do objeto — que o sujeito encontra o prazer de existir. Desejar, afinal, é participar do jogo da vida, onde nada é fixo, mas tudo pode se simbolizar.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Françoise Dolto