Teoria e conceitos

Fantasiar não é fugir da realidade — é tentar sobreviver a ela.

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 06:52

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🧐📄 TEXTÃO DO DIA *Fantasiar não é fugir da realidade — é tentar sobreviver a ela.* Freud nunca tratou a fantasia como simples devaneio infantil ou escapismo ingênuo. Ao contrário: a fantasia surge justamente porque a realidade, quase sempre, falha em satisfazer nossos desejos mais íntimos. É diante dessa insuficiência do mundo que o psiquismo cria cenas, narrativas e enredos nos quais algo do desejo pode, enfim, encontrar realização. A fantasia não nega a realidade; ela a corrige, a rearranja, a suplementa. É nesse ponto que Freud introduz a noção decisiva de realidade psíquica: aquilo que não aconteceu no mundo externo pode, ainda assim, produzir efeitos tão ou mais intensos do que um fato “real”. Quando observamos a relação entre fantasia e narcisismo, esse mecanismo se torna ainda mais evidente. A realidade insiste em nos lembrar de nossos limites, da frustração, da perda de centralidade e da queda dos ideais de onipotência. A fantasia, então, oferece um palco onde o sujeito volta a ser protagonista absoluto: ali, o desejo se realiza sem demora, o reconhecimento é garantido e os conflitos encontram soluções mágicas. Fantasiar é, muitas vezes, uma tentativa de restaurar um narcisismo ferido. Mas essa restauração cobra seu preço quando o sujeito passa a exigir da realidade que ela funcione segundo o roteiro de suas fantasias. É também pela via da fantasia que reescrevemos nosso passado. As chamadas “lembranças da infância” raramente são registros fiéis do que foi vivido; elas são, na maior parte das vezes, construções tardias, organizadas a partir das fantasias atuais do sujeito. Assim, o passado não é algo fixo: ele é constantemente remodelado pelo presente do desejo. A clínica mostra, dia após dia, que recordar não é recuperar fatos, mas reorganizar sentidos. Por fim, Freud nos alerta para um aspecto menos confortável: nem toda fantasia é fonte de prazer. Há fantasias que fazem sofrer — fantasias masoquistas, repetitivas, marcadas pela culpa e pela dor. Ainda assim, elas persistem, porque respondem a algo do desejo inconsciente. A fantasia, seja prazerosa ou penosa, revela sempre uma verdade do sujeito: não a verdade dos acontecimentos, mas a verdade do modo como ele se relaciona com seu desejo, com sua falta e com o outro. Na clínica, escutar a fantasia não é corrigi-la nem desmenti-la. É tomá-la como via privilegiada de acesso à realidade psíquica do analisando. Onde a realidade falha, a fantasia fala. E é justamente aí que a análise começa.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Sigmund Freud