Clínica e técnica psicanalítica

Quando o manejo clínico precisa anteceder a interpretação

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 06:42

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🧐📄 *TEXTÃO DO DIA* *Quando o manejo clínico precisa anteceder a interpretação* No texto **“Sobre as compulsões e o dispositivo psicanalítico”**, **Jô Gondar** nos obriga a rever um ponto sensível da prática clínica: há sofrimentos que não pedem, de início, interpretação — pedem **manejo**. Nos pacientes com sintomas compulsivos, a clínica clássica encontra um limite estrutural, porque o sintoma já não funciona como mensagem endereçada a um Outro. Ele aparece como ato cru, repetitivo, frequentemente governado por um **imperativo superegóico tirânico**, no qual o sujeito se coloca como objeto de gozo da lei. O manejo, aqui, começa por um trabalho de **esvaziamento desse imperativo**, enfraquecendo a lógica do “dever absoluto” que dispensa o desejo e empurra o paciente para circuitos autodestrutivos. Interpretações que operam como corte ou lei tendem, nesses casos, a reforçar o supereu, funcionando mais como ordem persecutória do que como abertura de sentido . Outro eixo central do manejo é a **construção de uma esfera imaginária e fantasística**, frequentemente ausente nesses pacientes. Gondar mostra que, nas compulsões, falta a tela protetora que media a relação entre subjetividade e real: não há fantasia, projetos, crenças ou mesmo uma imagem corporal suficientemente integrada. Sem essa mediação, o sujeito fica exposto a um real siderante, que paralisa ou empurra ao ato. O trabalho clínico não consiste, portanto, em desmontar o imaginário — como tantas vezes aprendemos —, mas em **ajudar a construí-lo**. O enquadre, o olhar do analista, a sustentação da presença e até a recusa do divã podem ser recursos fundamentais para favorecer essa costura psíquica, permitindo que algo da experiência ganhe forma, contorno e espessura subjetiva . Nesse contexto, o manejo visa sobretudo a **assunção da dimensão desejante**, ainda que ela se apresente apenas como lampejo. Gondar propõe abandonar uma visão rígida de “sujeito” para trabalhar com a ideia de **processos de subjetivação**: mesmo onde o desejo parece ausente, há pequenos índices — inflexões de voz, gestos, olhares, modulações pulsionais — que funcionam como fagulhas desejantes. Cabe ao analista uma escuta ampliada, que inclua o corpo, o tom, o ritmo, o olhar, valorizando esses sinais como matéria clínica. Não se trata de interpretá-los, mas de **reconhecê-los, legitimá-los e lhes dar consistência**, abrindo um caminho para que a recusa vazia ao supereu possa, pouco a pouco, transformar-se em afirmação subjetiva. O manejo clínico, aqui, é um trabalho de delicadeza, persistência e ética: ampliar o dispositivo psicanalítico para que o desejo possa nascer onde antes só havia compulsão .

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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