Clínica e técnica psicanalítica

Diferença sexual na clínica: escutar o desejo onde não há garantia

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 06:11

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🧐📄 *Textão de hoje* *Diferença sexual na clínica: escutar o desejo onde não há garantia* Na clínica psicanalítica, a diferença sexual não se apresenta como um dado objetivo, mas como um ponto de impasse que atravessa o discurso do sujeito. O sofrimento raramente está ligado ao corpo em si, e quase sempre à forma como esse corpo foi significado no campo do desejo do Outro. É nesse sentido que a sexualidade deixa de ser explicada pela anatomia e passa a ser escutada como posição subjetiva: o que está em jogo não é ser homem ou mulher, mas como cada sujeito se arranja diante da falta, da castração e do desejo que nunca encontra garantia plena. Os conceitos de falo e castração são fundamentais para o manejo clínico porque deslocam o analista de uma leitura normativa. O falo não é um órgão nem um atributo pessoal, mas um significante que organiza o desejo ao indicar um lugar de falta. Quando o sujeito sofre tentando “ter”, “ser” ou “encarnar” esse falo — seja pelo domínio, pela sedução, pela maternidade ou pelo ideal de potência — o sintoma aparece como tentativa de tamponamento. A clínica, então, não visa corrigir posições femininas ou masculinas, mas localizar como essas posições funcionam como soluções provisórias frente ao impossível da completude. Essa orientação permite ao analista sustentar a pergunta em vez de oferecer respostas identitárias. Muitas queixas contemporâneas — crises amorosas repetidas, angústias ligadas ao corpo, impasses no desejo ou no gozo — revelam justamente o fracasso das promessas de identidade plena. Ao operar desidentificações, a análise abre espaço para que o sujeito se responsabilize por seu modo singular de desejar, sem se submeter a modelos ideais. É nesse ponto que conceitos desenvolvidos em Feminino/Masculino – A diferença sexual em psicanálise, de Maria Cristina Poli, se mostram clinicamente fecundos: ao recolocar a diferença sexual como estrutura e não como essência, eles orientam uma escuta que não normaliza, não moraliza e não fecha o sentido, mas sustenta o trabalho do desejo.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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