A clínica winnnicottiana
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*A clínica winnnicottiana*
Na clínica winnicottiana, não é o procedimento técnico que organiza a análise, mas o tempo. A situação clínica se estrutura em torno do gesto, da ação e do acontecimento do self. Desde o início do tratamento, o analista precisa sustentar um enquadre que permita ao paciente gestar algo próprio, pois é nesse tempo vivido — e não apressado — que a análise se constrói e pode, ao final, conduzir a um encerramento saudável, entendido como passagem e não como ruptura .
O self, para Winnicott, não é dado de antemão: ele se constitui na relação com o ambiente. Só pode emergir quando há sustentação suficiente para a dependência, a hesitação e o risco. O paradigma do jogo da espátula mostra isso com precisão: o bebê hesita, apropria-se do objeto, brinca e o abandona. Nesse pequeno ciclo estão condensadas a criação do self, a relação com o objeto e a possibilidade de perda. Quando o analista invade ou apressa esse processo, o gesto criativo se interrompe e a clínica se empobrece.
Por isso, Winnicott é contundente ao afirmar que a finalização da sessão deve estar subordinada ao gesto do paciente, e não ao relógio. O manejo do tempo é central, pois sessões encerradas sem consideração pelo momento clínico podem produzir angústias impensáveis. A transferência, aqui, é uma experiência viva: o analista precisa ser encontrado, usado e até destruído, sobrevivendo sem retaliar. Só assim o paciente pode brincar, criar e existir. Onde não há possibilidade de brincar, não há análise — apenas técnica vazia.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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