Subjetividade contemporânea

Depressão semeia silêncio nos sujeitos do presente

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 05:08

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🧐📄 *Textão de hoje* *Depressão semeia silêncio nos sujeitos do presente* Há razões demais para sentir-se vazio na contemporaneidade. O mal-estar já não se apresenta como sintoma de conflitos inconscientes, mas como um “abandono do desejo”. Em vez da neurose freudiana, a depressão parece ocupar o centro da cena clínica atual. A escuta psicanalítica do sofrimento revela que não se trata apenas de uma doença médica, mas de uma “falência simbólica” do sujeito diante do Outro. O tempo psíquico do depressivo é um tempo sem futuro, como escreve Kehl: “O deprimido já não deseja; ele quer parar de sofrer.” Se antes o sintoma demandava interpretação, hoje ele se cala. A angústia não é mais um enigma a ser decifrado, mas uma dor surda, esvaziada de representação. A depressão é, nesse sentido, uma paixão do objeto: o sujeito se vive como coisa inútil, como sobra de um desejo que já não o convoca. Essa transição da angústia para o vazio pode ser lida como um efeito da temporalidade neoliberal. “Vivemos uma cultura da performance, onde a depressão equivale à falha em estar à altura do ideal de sucesso.” O supereu moderno não acusa: ele exige, cobra, consome. Mais do que ausência de serotonina, a depressão escancara uma perda de endereçamento: “O tempo do deprimido é o tempo do fracasso da inscrição subjetiva no campo do Outro.” Não há laço social, nem transferência, nem lugar simbólico que o sujeito possa ocupar. Ele se encontra reduzido a um resto: o que já não serve para nada. O cenário contemporâneo, marcado pela aceleração e pela obsolescência, torna o sofrimento ainda mais indizível. “Não se tem tempo para sofrer. É preciso produzir.” E quando o sofrimento escapa à produtividade, ele é medicalizado. Eis o diagnóstico psicanalítico: o que chamamos de depressão é, muitas vezes, o nome de um silêncio imposto ao desejo.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Maria Rita Kehl