Clínica e técnica psicanalítica

Sexualidade sem fronteiras ainda causa ruído na clínica

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 06:02

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🧐📄 *Textão de hoje* Sexualidade sem fronteiras ainda causa ruído na clínica Há muitas razões para se sentir desorientado com o uso contemporâneo do termo “sexualidade”. Mesmo mais de um século após Freud ter subvertido a noção de que sexualidade está ligada apenas à genitalidade, o campo ainda vive entre a ampliação conceitual e a resistência à sua implicação. O livro “Sexual: A sexualidade ampliada no sentido freudiano (2000–2006)” reúne textos que atualizam a tese freudiana da sexualidade como estrutura psíquica, e não função biológica. A sexualidade, aqui, não se refere a práticas ou identidade, mas ao que irrompe no sujeito como resto de gozo. Se você ainda pensa que sexualidade se refere apenas ao sexo entre adultos ou à heteronormatividade, vai encontrar nos textos da coletânea um ponto de inflexão. “A sexualidade freudiana é aquela que não se reduz ao instinto, nem se restringe à função reprodutora” (p. 20). Não há harmonia entre natureza e cultura, e o corpo psicanalítico é um corpo furado pela linguagem. Os autores lembram que Freud jamais recuou diante do incômodo clínico que a sexualidade infantil provocava. E é por isso que a pulsão ocupa um lugar central: “A pulsão é o modo como o corpo entra na linguagem, é a sexualidade recortada pelo significante” (p. 85). A sexualidade, assim, é o campo onde o sujeito se forma e onde se alojam os sintomas. Além disso, o livro atualiza a noção de diferença sexual à luz do gozo não-fálico. A posição feminina, por exemplo, não se define por gênero, mas por uma relação com o gozo que escapa à lógica do tudo: “O gozo feminino é não-todo, e escapa à significação fálica” (p. 103). Isso implica que a feminilidade é menos um lugar identitário e mais um ponto de indeterminação. --- > Esse deslocamento do sexo biológico para o campo significante da pulsão é o que torna a sexualidade freudiana subversiva — e difícil de traduzir em políticas normativas. --- A questão do trauma, central na tradição freudiana, também ganha nova leitura. O trauma sexual, dizem os autores, não é o fato bruto, mas a forma como o sujeito o simboliza. “A fantasia sexual é mais determinante que o fato” (p. 69). Isso quer dizer que todo trauma é também uma construção simbólica, marcada pela linguagem. Essa concepção coloca a clínica psicanalítica num ponto de tensão com os discursos que reduzem a sexualidade a categorias estáveis, como identidade de gênero, orientação ou comportamento sexual. “O sexual é o que retorna sempre recalcado, mas insiste no sintoma e no ato” (p. 98). Nesse sentido, a sexualidade freudiana não se encaixa em molduras identitárias. O livro propõe que a sexualidade seja compreendida como resto e excesso, como aquilo que escapa ao saber do sujeito sobre si mesmo. É nesse ponto que a sexualidade se encontra com o inconsciente estruturado como linguagem, e onde se instala o desejo. Ao final, os autores afirmam que a sexualidade em psicanálise é mais do que objeto de estudo: é a própria via de acesso ao sujeito. “Não há sujeito fora do sexual: é o sexual que inscreve a falta e funda o desejo” (p. 117).

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Sigmund Freud