Clínica e técnica psicanalítica

A luta silenciosa para continuar sendo quem somos

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 11:05

2 min de leitura
🧐📄 *Textão do Dia* *A luta silenciosa para continuar sendo quem somos* Há uma tendência contemporânea de definir as pessoas por aquilo que lhes falta. Falta atenção, falta memória, falta motivação, falta controle emocional. Mas Oliver Sacks nos lembra de algo fundamental: por trás de cada sintoma existe uma pessoa tentando continuar sendo ela mesma. Em suas histórias clínicas, Sacks mostra que a doença não destrói apenas funções neurológicas. Ela desafia a própria identidade. Quando alguém perde a memória, a percepção ou a capacidade de reconhecer o mundo ao redor, não está perdendo apenas uma habilidade. Está sendo confrontado com a pergunta mais difícil de todas: quem sou eu quando aquilo que me organizava deixa de existir? A psicanálise conhece bem esse problema. Muitas vezes chegamos à clínica acreditando que o sofrimento está apenas no sintoma. Queremos eliminar a ansiedade, a angústia, os conflitos ou os comportamentos repetitivos. Mas, com frequência, descobrimos que esses sintomas também sustentam algo da nossa história e da nossa maneira de existir. Talvez seja por isso que a cura nunca seja apenas a remoção de um problema. Existe sempre um trabalho de reconstrução. Uma tentativa de criar novos sentidos, novas formas de habitar a própria vida e novas maneiras de sustentar a identidade diante das perdas inevitáveis da existência. Sacks nos ajuda a lembrar que o cuidado não é dirigido a uma doença abstrata, mas a um ser humano que luta para preservar sua identidade em circunstâncias adversas. Essa ideia ultrapassa a neurologia e toca algo profundamente humano. Todos nós, em alguma medida, estamos tentando fazer isso diariamente. Preservar quem somos enquanto o tempo passa, os vínculos mudam, as certezas desaparecem e a vida nos obriga a reinventar a nós mesmos. Talvez a saúde psíquica não seja a ausência de falhas ou sofrimentos. Talvez ela esteja na capacidade de continuar criando sentido mesmo quando aquilo que conhecíamos deixa de existir.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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