Clínica e técnica psicanalítica

Recordar, Repetir e Elaborar segundo a técnica psicanalítica

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 13:28

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🧐📄 *Texto de hoje* Recordar, Repetir e Elaborar segundo a técnica psicanalítica O texto “Recordar, Repetir e Elaborar”, escrito por Freud em 1914, apresenta um desenvolvimento metodológico da prática analítica centrado no manejo da transferência e na forma como os conteúdos recalcados se manifestam durante o tratamento. Freud retoma os princípios do tratamento das neuroses, propondo um ajuste na técnica baseada na observação clínica de que nem tudo que está recalcado pode ser recordado diretamente. Freud parte da afirmação de que o paciente, ao invés de recordar as vivências infantis esquecidas, tende a repeti-las em ato, como se estivesse vivendo-as no presente: “Não se lembra de nada do que esqueceu ou reprimiu, mas atua. Não o reproduz como lembrança, mas como ação” (p. 289). Essa repetição, segundo ele, ocorre no campo da transferência, que se torna o lugar privilegiado para a expressão dos sintomas e das defesas do sujeito. Freud afirma: “A repetição se realiza com especial preferência na relação com a pessoa do médico” (p. 290), e essa repetição não é voluntária, mas compulsiva. O trabalho clínico, portanto, consiste em transformar essa repetição inconsciente em recordação consciente, ou seja, converter o atuar em elaboração. O autor aponta que o analista não deve apenas buscar a rememoração, mas sustentar o processo que leva o sujeito a elaborar os elementos que se manifestam no campo transferencial. “A função do médico é transformar essa repetição em lembrança” (p. 293). Freud discute ainda os desafios técnicos impostos por essa repetição, incluindo a resistência e a necessidade de preparar o paciente para lidar com os conteúdos emergentes. “O paciente deve aprender que a repetição é apenas uma substituição da recordação e que deve aceitá-la como tal” (p. 294). A resistência aparece como força que impede o recordar e que se exprime na própria repetição. Assim, a análise da resistência torna-se condição de possibilidade da análise do recalque. A importância do tempo e da paciência na análise também é destacada: “A elaboração exige tempo, paciência e renúncia” (p. 295). O sujeito precisa trabalhar repetidamente com os mesmos materiais, sendo guiado pelo analista na construção de uma nova relação com o inconsciente. Freud afirma que a cura se dá, em última instância, pela elaboração, e não pela simples recordação ou interpretação isolada: “O verdadeiro êxito da análise repousa no trabalho de elaboração” (p. 296). Esse trabalho permite que os traços mnêmicos se reorganizem e que o sujeito se aproprie, de modo menos sintomático, de sua história. A análise, nesse contexto, é uma travessia da repetição em direção à simbolização. O analista não impõe significados, mas sustenta a emergência do inconsciente na transferência, ajudando o sujeito a enfrentar as resistências que o impedem de lembrar e elaborar suas vivências recalcadas. --- Referência: FREUD, Sigmund. Recordar, Repetir e Elaborar (1914). In: FREUD, S. Obras completas, volume 12. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 289–296.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Sigmund Freud