Clínica e técnica psicanalítica

A depressão segundo a teoria e a clínica psicanalítica

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 08:21

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🧐📄 *Texto do dia* A depressão segundo a teoria e a clínica psicanalítica O livro A depressão, de J.-D. Nasio, apresenta uma investigação sistemática sobre a natureza clínica da depressão à luz da teoria psicanalítica. A obra é estruturada a partir de conferências e reflexões clínicas que visam compreender a especificidade da depressão no campo do sofrimento psíquico. O autor não reduz o fenômeno a classificações psiquiátricas, mas o articula à lógica do inconsciente, ao lugar do Outro e ao gozo do sujeito. Logo no início, é proposta uma distinção entre tristeza e depressão. A tristeza é apresentada como um estado psíquico universal e legítimo, enquanto a depressão é uma patologia do vínculo entre o sujeito e seu desejo. Nasio afirma: “A depressão não é uma tristeza, mas a perda de um desejo que fazia viver” (p. 25). Ao longo do livro, o autor descreve quatro formas clínicas de depressão: a depressão melancólica, a depressão histérica, a depressão narcísica e a depressão obsessiva. Cada uma dessas formas corresponde a uma estrutura subjetiva distinta e se manifesta por meio de sintomas específicos. A depressão melancólica, por exemplo, caracteriza-se por um apagamento do Eu e por um sentimento de indignidade radical: “O melancólico se sente culpado de existir” (p. 41). Nasio discute também a relação entre depressão e culpa. A culpa é central no desencadeamento e manutenção da depressão, sendo descrita como uma dívida subjetiva sentida como impagável. “A culpa do depressivo é uma dívida vivida como infinita diante de um Outro idealizado que nunca é satisfeito” (p. 47). Outro ponto importante da obra é a análise da relação entre depressão e ideal do Eu. O autor mostra que a depressão muitas vezes se instala quando o sujeito percebe que não pode mais sustentar o ideal que o organizava. Essa perda do ideal leva ao colapso da imagem de si. Ele escreve: “O depressivo é aquele que desiste de ser à altura do próprio ideal” (p. 56). Nasio também se detém na clínica da transferência com sujeitos deprimidos. Ele aponta que o paciente depressivo tende a suscitar no analista sentimentos contratransferenciais de impotência, irritação ou mesmo identificação com o estado melancólico. É necessário, portanto, que o analista mantenha uma escuta ativa, sustentando o desejo por meio da palavra. “É preciso que o analista fale ao depressivo, mesmo que este se recuse a escutar” (p. 69). A direção do tratamento, segundo o autor, passa pela reinscrição do desejo. A análise deve permitir ao sujeito reencontrar a via de seu desejo singular, rearticular sua posição diante do Outro e elaborar as perdas vividas. O trabalho analítico visa a uma simbolização da dor psíquica e à reconstrução do laço transferencial. “Sair da depressão é reaprender a desejar” (p. 85). Ao final da obra, o autor insiste que a depressão deve ser acolhida como um sofrimento legítimo, que exige escuta, tempo e uma intervenção ética. Não se trata de apagar o sintoma, mas de restituir ao sujeito sua capacidade de desejar e significar sua existência. Referência: NASIO, J.-D. A depressão. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, s/d.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

J.-D. Nasio