Clínica e técnica psicanalítica

Quando o sofrimento pede pressa e a psicanálise pede verdade

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 11:33

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🧐📄 *Textão de hoje* *Quando o sofrimento pede pressa e a psicanálise pede verdade* Vivemos em uma época em que tudo precisa ser rápido: a cura, a resposta, a solução. A cultura do “resolve logo” contaminou até o sofrimento psíquico. Não é à toa que as psicoterapias, desde Mesmer até as TCCs contemporâneas, oferecem protocolos, etapas, metas, reorganização de crenças, mudança de condutas, reenquadramento cognitivo. São propostas de adaptação ao mundo, caminhos para “ser funcional”, métodos para “recuperar a harmonia” — como se houvesse, no horizonte humano, uma forma ideal de viver à qual pudéssemos retornar simplesmente ajustando engrenagens internas. Mas o texto de Pierre Marie lembra algo essencial: todas essas terapias se apoiam numa concepção de homem, numa ideia de Bem, numa promessa de sentido. Elas supõem que existe um caminho certo, uma vida mais correta, um alinhamento possível entre o sujeito e o mundo. E é justamente aí que a psicanálise se separa de todas elas. A psicanálise nasce, paradoxalmente, do abandono da promessa. Freud não oferece sentido, oferece coragem. Não propõe adaptação, propõe confronto. Não parte de uma visão de “como o sujeito deve ser”, mas de como ele fala, como ele deseja, como ele se divide. O analista não convoca o paciente a incorporar valores, crenças ou condutas; ele sustenta um lugar de neutralidade que, por si só, destrói a fantasia de que exista um saber universal sobre o humano. A “cura” aqui não é tornar-se normal — é tornar-se singular. Não é alcançar harmonia — é suportar o próprio conflito sem precisar maquiar o sintoma. A psicanálise lembra o que tentamos esquecer: não há roteiro, não há fluxo natural, não há “seja você mesmo” que nos poupe da angústia de sermos divididos e desejantes. Há apenas uma travessia — e ela é sempre única. Hoje, talvez mais do que nunca, precisamos recordar isso: o trabalho analítico não é corrigir o sujeito para caber no mundo, é abrir espaço para que ele finalmente exista. Não é ensinar a viver: é permitir que fale. E, quando a palavra encontra seu lugar, algo do sofrimento encontra outra saída que não o apagamento, o adestramento ou a promessa fácil de felicidade. A psicanálise não promete alívio — promete encontro. E, às vezes, isso é o suficiente para começar a respirar.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Sigmund Freud