Clínica e técnica psicanalítica

Quando a depressão pede um ambiente que sustente

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 05:02

2 min de leitura
🧐📄 *Textão do Dia* *Quando a depressão pede um ambiente que sustente* Talvez um dos maiores equívocos ao pensarmos a depressão seja tratá-la apenas como um excesso de dor — quando, muitas vezes, ela revela justamente o contrário: uma falha na sustentação do existir. Em uma leitura inspirada em Winnicott, a depressão não aparece apenas como sintoma, mas como sinal de algo que não pôde se constituir plenamente no início da vida. Antes de ser tristeza, ela pode ser um colapso silencioso da capacidade de estar vivo de dentro para fora. Não é só sofrimento — é, por vezes, um esvaziamento do sentido de existir. Winnicott nos ensina que o sujeito não nasce pronto: ele precisa de um ambiente suficientemente bom que o sustente, o acolha e sobreviva às suas angústias primitivas. Quando esse ambiente falha — não necessariamente por ausência, mas por desencontro — algo no desenvolvimento emocional pode ficar comprometido. A depressão, nesse sentido, pode ser entendida como uma tentativa tardia de reorganização psíquica. Como se o sujeito, já adulto, ainda buscasse um chão que nunca se firmou completamente. Não se trata apenas de interpretar — trata-se de sustentar. Há uma diferença fundamental, portanto, entre uma depressão que faz parte do amadurecimento — aquela ligada à capacidade de sentir, de se importar, de elaborar perdas — e a depressão que paralisa, que esvazia, que desconecta o sujeito de si mesmo. Esta última não se resolve com explicações ou conselhos. Ela exige presença. Exige um outro que não recua, que não invade, mas que permanece. Porque, para alguns sujeitos, o mais difícil não é falar — é simplesmente continuar existindo. Talvez, então, o trabalho clínico com a depressão, nessa perspectiva, não seja o de “tirar alguém do buraco”, mas o de estar com ele ali, sem abandoná-lo, até que algo da vida possa, pouco a pouco, voltar a acontecer. E isso muda tudo. Porque, no fundo, a pergunta não é “como curar a depressão?”, mas sim: quem consegue permanecer quando tudo dentro do sujeito já desistiu?

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Donald Winnicott